O dado saiu numa pesquisa séria, com 1.545 trabalhadores americanos, e a manchete vendeu como novidade tecnológica aquilo que é, no fundo, um atestado de óbito da confiança no ambiente de trabalho. A inteligência artificial agora faz o papel de psicólogo, confidente, ombro amigo e válvula de escape emocional do funcionário médio. E o resto da imprensa econômica recebeu o número com aquele entusiasmo bobo de quem confunde sintoma com cura, achando que o problema é a tecnologia ter avançado, quando o problema verdadeiro é o ser humano ter recuado.

Olha, ninguém procura uma máquina para desabafar quando tem gente disponível. O trabalhador que abre o chat às três da tarde para contar à inteligência artificial que está exausto, que acha o gestor um imbecil, que pensou em pedir demissão na semana passada, esse trabalhador não está apaixonado pela tecnologia, está com medo do colega ao lado. Medo de o RH transformar conversa de corredor em processo disciplinar, medo da política interna, medo da delação travestida de cultura organizacional, medo de ser cancelado por uma palavra mal colocada num grupo do WhatsApp corporativo. A máquina, por enquanto, não fofoca. É a única que sobrou.

Quer dizer, há décadas o ambiente corporativo é vendido como espaço de pertencimento, propósito, missão, valores, toda essa retórica açucarada que enche apresentação de power point e contrato de coaching. Na prática, o que se construiu foi uma burocracia terapêutica que não cuida de ninguém, apenas vigia. Treinamento de viés inconsciente, comitê de diversidade, canal de denúncia anônima, política de tolerância zero a quase tudo, manual de conduta que proíbe até elogio físico. O empregado virou suspeito permanente, e o gestor virou promotor amador. Nesse cenário, a máquina não substituiu o psicólogo, substituiu o amigo que o ambiente proibiu.

E me diz uma coisa, quem ganha dinheiro com isso? Porque ninguém constrói uma indústria bilionária de IA corporativa de bem-estar por filantropia. Existe um circuito muito bem montado de consultoria de cultura, plataforma de saúde mental por assinatura, software de engajamento, dashboard de sentimento do funcionário em tempo real, tudo financiado pelo mesmo RH que criou o ambiente tóxico em primeiro lugar. O incêndio é vendido por quem está vendendo o extintor. O trabalhador paga duas vezes, com o salário que financia a estrutura e com a alma que entrega ao algoritmo, e ainda acha que está sendo cuidado.

O que não se vê nessa estatística é o custo invisível da terceirização do humano. Cada conversa que antes era resolvida com um café, um cigarro na escada, um almoço com o colega de longa data, agora é processada por um modelo treinado para concordar com você o suficiente para você voltar amanhã. Isso não é apoio, é anestesia. O sujeito sai do chat aliviado e não muda nada na vida real, porque a máquina não tem skin in the game, não vai brigar pela sua promoção, não vai te convidar para o churrasco, não vai aparecer no seu velório. O alívio é instantâneo e a degradação é silenciosa, como toda boa servidão moderna.

No fundo, a notícia deveria ser lida ao contrário. Não é que a IA conquistou o coração do trabalhador, é que o trabalhador foi expulso do convívio humano dentro da empresa que paga o salário dele. E quando uma civilização chega ao ponto de preferir o software ao supervisor, o chatbot ao colega, o algoritmo ao amigo, não é a tecnologia que está vencendo, é a comunidade que está perdendo. O dia em que a máquina virou o ser mais confiável do escritório foi o dia em que o escritório deixou de ser um lugar de gente.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.