Veja o roteiro de sempre. Surge uma ferramenta que permite ao sujeito comum planejar uma viagem em quinze minutos, comparar preços que antes só agências sabiam negociar, montar itinerário sem precisar pagar pedágio para intermediário nenhum, e imediatamente brota nas manchetes a velha pergunta retórica disfarçada de jornalismo, ameaça ou oportunidade. Como se a resposta não estivesse escrita há séculos na biografia de toda inovação que o mercado livre já produziu, do tear mecânico ao computador pessoal. A pergunta verdadeira, aquela que o colunista de banco não faz porque o banco patrocina o caderno, é outra: a quem exatamente incomoda que o turista deixe de ser refém de uma cadeia de atravessadores que cobravam comissão para fazer aquilo que um algoritmo agora faz de graça.

Siga o dinheiro e o quadro fica nítido. Operadoras tradicionais, redes hoteleiras com modelo travado em distribuição cara, agências corporativas que viviam de margem opaca, plataformas de reserva que cobravam o cliente nas duas pontas e ainda apresentavam fatura ao hotel, todo esse arranjo respira aliviado quando alguém aparece na imprensa pedindo regulação da inteligência artificial em nome do consumidor. Em nome do consumidor, sempre. É a fórmula mágica que serve para qualquer captura de mercado desde que existem lobistas. Proteger o consumidor, proteger o trabalhador, proteger o setor estratégico, proteger a soberania, e quando você desempacota o pacote o que está lá dentro é sempre a mesma coisa, fatura preservada de quem não quer competir.

Existe aquilo que se vê e existe aquilo que ninguém mostra. O que se vê é o atendente de agência que talvez perca o emprego, e isso vira pauta, vira reportagem comovente, vira deputado discursando. O que não se vê é a família que pela primeira vez consegue planejar uma viagem internacional sem pagar três salários mínimos de comissão para alguém apertar botões num sistema fechado. Não se vê o pequeno hotel de cidade do interior que finalmente fura o monopólio das grandes plataformas porque um agente de IA leva o hóspede direto até ele. Não se vê o guia local autônomo que agora aparece no resultado de busca sem precisar pagar pedágio para o intermediário global. A inovação destrói visivelmente, mas constrói invisivelmente, e o invisível sempre é maior.

O argumento técnico de que a IA pode errar, recomendar mal, criar viés, é verdadeiro e profundamente irrelevante. Toda ferramenta nova erra no início, e o mercado corrige na velocidade da reputação, que é mil vezes mais rápida que qualquer agência reguladora. Quem foi enganado uma vez por uma recomendação ruim não volta, escreve avaliação, vira caso, e o produto melhora ou morre. Esse mecanismo, que funciona há séculos sem que nenhum ministério precise existir, é justamente o que os defensores da regulação preventiva querem substituir por comitê de notáveis decidindo o que pode e o que não pode. Como se o burocrata de Brasília soubesse melhor que cinquenta milhões de turistas qual viagem cada um deles deve fazer.

Há ainda o capítulo cultural da história, que é o mais sintomático. Toda vez que uma tecnologia desintermedia, isto é, tira poder do meio e devolve ao indivíduo, aparece a queixa de que se está perdendo algo, o atendimento humano, o calor, a curadoria, o toque artesanal. Pode ser. Mas ninguém está proibindo o turista de pagar pelo atendimento humano se ele quiser. O que se está fazendo é permitindo que quem não pode pagar, ou simplesmente não quer, tenha alternativa. Liberdade não é obrigação, é possibilidade. E quem se incomoda com a possibilidade alheia geralmente está protegendo um privilégio próprio que dependia da ausência dela.

A inteligência artificial no turismo não é ameaça nem oportunidade, essa dicotomia preguiçosa serve apenas para vender clique. Ela é o que toda inovação séria sempre foi, um teste de caráter para o setor que a recebe. Quem se adapta prospera, quem corre para o colo do Estado pedindo proteção confessa que não tinha nada a oferecer além da própria comodidade. O resto é barulho, e barulho não move turista nenhum.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.