A Iambic Therapeutics, mais uma daquelas empresas que juntam a palavra inteligência artificial com a palavra oncologia e acham que descobriram a pólvora, resolveu bater na porta do mercado de capitais americano em busca de financiamento para tocar seus programas contra o câncer. O roteiro é sempre o mesmo, e por isso mesmo tão irritante de assistir pela enésima vez. Uma biotech em estágio inicial, com moléculas ainda longe da prateleira, apresenta ao investidor uma apresentação repleta de gráficos coloridos, promessas de disrupção e a garantia implícita de que, desta vez, o algoritmo vai acertar onde décadas de pesquisa tradicional erraram. O investidor engole, porque cura de câncer vende, e porque a moda do momento é comprar qualquer coisa que tenha as duas letrinhas mágicas coladas ao nome.
Olha, ninguém aqui é contra empresa privada captar recurso na bolsa. Muito pelo contrário. O mercado de capitais é uma das invenções mais civilizatórias que a humanidade já produziu, porque permite que quem tem uma ideia encontre quem tem dinheiro sem precisar da benção de nenhum burocrata de gravata. O problema não é a Iambic abrir capital. O problema é o ecossistema que se armou em volta desse tipo de estreia, um ecossistema em que os retornos assimétricos são cuidadosamente desenhados para beneficiar quem entrou primeiro, quem estruturou a oferta, quem escreveu o relatório de research patrocinado, e quem vai vender suas ações no primeiro repique. O sujeito que comprou pela plataforma de home broker acreditando que estava financiando a cura do câncer costuma ficar segurando o mico quando a fase dois do estudo clínico dá ruim.
Aqui é onde vale seguir o dinheiro com calma. Uma biotech em estágio pré-comercial não gera receita relevante, queima caixa por natureza, e depende de novas rodadas para continuar existindo. Isso significa que o valuation inicial é, na prática, uma ficção contábil sustentada por narrativa. Os fundos de venture capital que entraram antes precisam de uma saída, e a abertura de capital é exatamente essa porta. O banco que coordenou a oferta ganha comissão gorda independente do que aconteça com a molécula. O executivo com pacote de opções ganha se o papel subir no curto prazo, mesmo que o remédio nunca chegue à farmácia. E o câncer, coitado, segue lá, matando gente enquanto o dinheiro roda entre intermediários.
Tem também a parte que ninguém gosta de encarar de frente, que é a captura política e regulatória embutida no negócio farmacêutico americano. Todo remédio novo depende de aprovação da FDA, e todo processo de aprovação é um labirinto onde só sobrevive quem tem caixa para pagar advogado, consultor, ex-regulador virado lobbyist e uma parafernália inteira de intermediários. Isso não é livre mercado, isso é um mercantilismo sofisticado que se disfarça de ciência. Empresa pequena com molécula genuinamente inovadora quebra antes de chegar à fase três. Empresa grande com narrativa bonita e caixa para atravessar o deserto regulatório passa. O resultado é uma indústria em que o preço final do remédio precisa cobrir não só a pesquisa, mas o custo político de conseguir vender o remédio. Adivinha quem paga essa conta no final. O paciente terminal, aquele que a apresentação da IPO jurou que ia salvar.
E ainda tem o detalhe da inteligência artificial, esse verniz sagrado dos anos vinte deste século. Toda vez que uma empresa em qualquer setor pronuncia essas duas palavras, seu valuation triplica sem que ninguém audite se o algoritmo realmente faz o que diz que faz. Ninguém está negando que modelagem computacional acelere descoberta de moléculas, isso é fato consumado há anos. O que se questiona é a mágica implícita, a ideia de que agora, com máquinas melhores, o problema da eficácia clínica está resolvido. Não está. O corpo humano continua sendo o mesmo laboratório teimoso de sempre, e nenhum modelo de linguagem prevê quando um paciente vai desenvolver toxicidade hepática na fase dois. A biologia debocha do hype.
No fim das contas, o pequeno investidor que colocou economias suas nesta oferta está fazendo uma aposta legítima, e tem o direito de fazê-la. Só precisa saber que está comprando uma loteria vestida de ciência, e que a probabilidade estatística de aquela molécula específica chegar ao mercado é a mesma de todas as outras loterias biotech: entre cinco e dez por cento. O resto é publicidade cara paga com o dinheiro dele. Se ele entender isso e ainda assim quiser participar, ótimo, é liberdade de disposição sobre o próprio patrimônio. Mas que ninguém venha depois chorar pedindo regulação, resgate governamental ou proteção estatal quando o papel virar pó. O mercado é livre para enriquecer e é livre para arruinar, e essa simetria é a única honestidade que ele oferece.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.