O Banco Central divulgou o IBC-Br do primeiro trimestre com aquele ar solene de quem traz boas novas, alta de 1,3%, manchete pronta, Faria Lima em êxtase, ministro da Fazenda postando gráfico em rede social. Só que o mesmo relatório, no parágrafo que ninguém lê, confessa: em março, sozinho, a atividade econômica recuou. Quer dizer, o trimestre fechou positivo porque janeiro e fevereiro carregaram o caixão, e março já mostrava a economia engasgando. É como anunciar que o paciente correu uma maratona porque na primeira semana ele andou bem, ignorando que no último dia ele caiu de cara no asfalto.

Olha, esse 1,3% precisa ser dissecado com bisturi, não celebrado com champanhe. O número agregado esconde a composição. Quando o governo despeja gasto público represado, antecipa pagamento de precatório, libera crédito subsidiado por banco estatal e cria meia dúzia de programas com nome bonito, a estatística sobe. Sobe por construção, não por produtividade. O PIB engorda como engorda boi confinado, à custa de ração cara paga por outro. E o outro, no caso, é você, é seu filho, é seu neto que ainda nem nasceu mas já deve.

Me diz uma coisa, que tipo de crescimento é esse que vem acompanhado de juros nas alturas, inadimplência recorde nas famílias, indústria de transformação patinando há uma década e serviços inflados por contratação de motorista de aplicativo que o IBGE conta como "ocupado"? É o velho truque da janela quebrada vestida de Armani. Você vê o operário recebendo o salário pago pelo subsídio, não vê a empresa que não nasceu porque o imposto que financiou o subsídio sufocou o empreendedor antes do primeiro CNPJ. Você vê a obra inaugurada com fita vermelha, não vê os mil pequenos negócios fechados em silêncio para pagar a obra.

E a inflação, essa senhora discreta que ninguém convida para o jantar mas que come do prato de todo mundo, segue cumprindo seu papel histórico de transferir riqueza de quem trabalha para quem imprime. Toda vez que uma autoridade monetária expande crédito artificialmente para fabricar um trimestre bonito, ela está plantando a crise do trimestre seguinte. O ciclo é tão velho quanto a primeira moeda envilecida por um imperador romano que precisava pagar legionário sem cobrar imposto. Mesma jogada, roupa nova, mesmo final.

O mais grave é o componente cultural da farsa. Acostumaram o brasileiro a achar que economia é o que o governo faz, e não o que milhões de pessoas decidem fazer com seu tempo, seu trabalho e sua poupança. Por isso, quando o IBC-Br sobe, agradece-se ao ministro; quando cai, culpa-se o "cenário externo". Nunca, em hipótese alguma, se admite a hipótese óbvia: que a economia cresceria sozinha, e cresceria mais, se o aparato estatal tirasse a bota do pescoço do produtor. Mas admitir isso destruiria o emprego de muita gente importante em Brasília, então o silogismo é proibido em público.

A queda de março não é acidente de percurso, é o aviso. O trimestre fechou no azul pela inércia dos meses anteriores e pelo combustível fiscal jogado na fogueira. Quando o combustível acabar, e ele sempre acaba, o número virá vermelho, e os mesmos analistas que hoje aplaudem dirão, com cara de surpresa, que ninguém poderia ter previsto. Poderia, sim. Quem sabe ler além da manchete sabia desde já.

Com informações do Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.