A iBio subiu ao palco da conferência de saúde do Wells Fargo para apresentar seu pipeline de obesidade, e o roteiro é conhecido de cor por quem acompanha o teatro de Wall Street. Uma empresa de capitalização modesta, história irregular, receita que não paga o café dos executivos, aparece com um deck de slides falando em anticorpos, receptores acoplados a proteína G, moléculas de próxima geração, e a plateia de gestores anota como se estivesse diante do próximo Novo Nordisk. Ninguém pergunta a coisa óbvia. Cadê o ensaio de fase avançada? Cadê o paciente real? Cadê o dado que não seja pré-clínico em bicho de laboratório?
Existe uma indústria paralela à indústria farmacêutica, e ela não vende remédio, vende expectativa. O ativo negociado nessas conferências não é a molécula, é a narrativa. Enquanto o GLP-1 virou febre de bolsa, dezenas de biotechs de terceira divisão descobriram que basta grudar a palavra obesidade no press release para o papel saltar dez, quinze, vinte por cento num pregão. É a versão farmacêutica daquela empresa que trocava o nome para acrescentar dot com em 1999, ou blockchain em 2017, ou inteligência artificial em 2024. Muda o disfarce, o truque é o mesmo.
Vale seguir o dinheiro, porque o dinheiro sempre conta a história verdadeira. Empresas nessa faixa vivem de emissão diluidora, aquele mecanismo pelo qual o executivo se paga em ações, o banco de investimento se paga em taxa, o fundo especulativo entra na baixa e sai na alta do anúncio, e o investidor de varejo, o senhor aposentado que leu no Investing que a próxima Ozempic está aqui, esse fica com o mico quando a poeira baixa. A conferência do Wells Fargo não é fórum científico, é balcão de captação. Ali se vende papel, não cura de doença.
E a obesidade, curiosamente, transformou-se em problema que só a indústria farmacêutica sabe resolver, num país onde o cidadão come ultraprocessado subsidiado por lobby agrícola, bebe refrigerante barateado por incentivo fiscal, e é bombardeado por publicidade de fast food regulada por ninguém. O Estado engorda a população com uma mão e vai financiar, com a outra, o remédio caríssimo que promete emagrecê-la. É o círculo perfeito do capitalismo de compadrio, onde o problema e a solução pertencem ao mesmo cartel de interesses, e o contribuinte paga as duas pontas sem entender por que a conta nunca fecha.
O que não se vê nesses anúncios é o cemitério de biotechs que apresentaram pipelines idênticos nos últimos vinte anos e sumiram sem deixar bilheteria. Para cada Novo Nordisk que emplaca, existem cinquenta empresas que queimaram capital, diluíram acionista, pagaram bônus milionário para o CEO e fecharam a porta. A estatística é conhecida por quem trabalha no setor e cuidadosamente omitida quando a apresentação começa. O que se vê é o slide bonito. O que não se vê é o histórico de fracasso que a indústria maquia com maestria.
A pergunta que ninguém faz na conferência é a única que importa. Se essa molécula funciona mesmo, por que precisa desfilar num banco de investimento em vez de estar num hospital tratando gente? A resposta é que o produto principal dessa empresa não é o remédio, é a ação. E o consumidor final não é o obeso, é o gestor de fundo que precisa mostrar retorno no trimestre. Quando a ciência vira coreografia de captação, o paciente é figurante e o acionista minoritário é a refeição.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.