O Ibovespa chega perto dos 178 mil pontos e a manada da Faria Lima sai correndo para vender otimismo enlatado como se fosse epifania. Olha, basta abrir o book e ver o que está acontecendo de verdade: o volume financeiro do pregão está minguando, os negócios estão concentrados em um punhado de papéis, e a alta que parece consenso é, na verdade, obra de poucos jogadores movimentando o tabuleiro num salão quase vazio. Preço sem volume é como aplauso de teatro vazio, faz barulho, mas não significa plateia.

A liturgia do mercado já conhece esse roteiro de cor. Chama-se bull trap, armadilha de touro, e funciona com a precisão de um relógio suíço cada vez que o dinheiro fácil enche os pulmões antes de soltar o ar. O índice é empurrado para cima por compras pontuais, o noticiário transforma o movimento em narrativa de "novo ciclo", o pequeno investidor entra convencido de que perdeu o bonde, e quando ele finalmente aperta o botão de comprar, do outro lado da tela há um institucional sorrindo enquanto despeja o estoque. A euforia do varejo é a liquidez de saída do profissional, sempre foi, sempre será.

E o que está sustentando essa subida lúdica? Não é a economia real, que continua atravancada por carga tributária recorde, gasto público em trajetória de bêbado em escada rolante, e juro real que estrangula investimento produtivo. É liquidez global procurando rendimento, é o estrangeiro fazendo carry trade enquanto o juro brasileiro paga prêmio absurdo, e é a expectativa torta de que algum corte de Selic vai aparecer para salvar o pato da temporada. Tira a impressora de dinheiro lá fora e o conserto fiscal continua sendo pintura na parede rachada; a bolsa não está cara porque as empresas valem mais, está inflada porque o termômetro da moeda derreteu.

Quem ganha com esse rali de fachada? Siga o dinheiro e a fotografia aparece nítida. Ganha o gestor que precisa fechar o trimestre com cota positiva para receber taxa de performance. Ganha o banco que vende fundo de ações no momento em que o índice está perto da máxima, porque é aí que o cliente assina. Ganha o governo, que vê arrecadação subir com imposto sobre ganho de capital sem precisar entregar uma única reforma de verdade. E perde, como de hábito, o sujeito que viu manchete, abriu home broker pela primeira vez e comprou ETF no topo achando que estava participando do milagre.

O detalhe que ninguém quer dizer em voz alta é simples: bolsa em máxima histórica num país com dívida pública na casa dos oitenta por cento do PIB, déficit primário crônico e Banco Central pressionado politicamente não é sinal de prosperidade, é sintoma de descolamento. Quando o ativo de risco sobe enquanto o fundamento piora, a conta vem em forma de correção brutal, e quem paga é sempre o último a comprar, nunca o primeiro a vender. A diferença entre investir e apostar é exatamente essa, e o mercado tupiniquim adora confundir as duas coisas para faturar nos dois lados do balcão.

O que se vê é o Ibovespa flertando com recorde nominal; o que não se vê é o poder de compra do real corroído, é o pequeno investidor sendo usado como saída de emergência do institucional, e é a próxima crise sendo gestada exatamente nesta euforia de volume baixo. Quando o pregão sobe e ninguém negocia, o que está subindo não é a bolsa, é a temperatura do laço.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.