Mais um pregão, mais um ritual de adoração. O Ibovespa e o dólar passaram o dia em compasso de espera, paralisados, como um doente esperando o veredito de um médico que ele mesmo financia. Do outro lado, balanços de empresas gigantescas que movimentam trilhões, geram emprego de verdade e produzem coisas que as pessoas usam. De cá, dois comitês de funcionários públicos reunidos em salas climatizadas decidindo, na canetada, o custo do dinheiro de bilhões de seres humanos. Adivinhe quem o mercado realmente assiste? Não é a Apple, não é a Microsoft, não é a Vale. É o burocrata.
Essa anomalia já virou paisagem. Aceitamos, como quem aceita o clima, que um punhado de doutores ungidos saiba, melhor do que milhões de empresários, poupadores e consumidores agindo em conjunto, qual deve ser a taxa básica de juros. É a pretensão fatal travestida de ciência. O preço do dinheiro, que deveria emergir do encontro orgânico entre quem poupa e quem investe, virou decreto. E quando o preço é decreto, o cálculo econômico vira chute, e o chute vira política industrial disfarçada de técnica monetária.
O IGP-M que sai junto nesse pacote é o desmentido vivo do discurso oficial. Toda vez que o índice desencaixa do IPCA, lembramos que existe uma inflação de produtor, de atacado, de insumo, que ainda não chegou na gôndola, mas vai chegar. Inflação não some, ela viaja pela cadeia. E enquanto o governo comemora um IPCA cosmeticamente comportado, congelando preços administrados, segurando combustível na Petrobras, empurrando aumento de tarifa para depois das eleições, o IGP-M denuncia o truque do ilusionista. A conta vem, sempre vem, e quem paga é quem não tem advogado tributarista.
Siga o dinheiro e o teatro fica claro. Quem ganha com juros altos no Brasil? O sistema financeiro que carrega título público a rentabilidade obscena, garantida pelo contribuinte que vai pagar essa dívida com seu trabalho. Quem ganha com juros baixos artificiais lá fora? O governo americano, que rola dívida impagável, e Wall Street, que infla ativos e vende para o aposentado da classe média. Os dois lados do balcão são empresários de compadrio fantasiados de defensores do interesse público. O resto, ou seja, você, é apenas a fonte pagadora do espetáculo.
E as Big Techs no meio disso? Servem de cortina. O leitor desavisado abre o caderno de economia, vê manchete sobre balanço trilionário, e acha que a notícia é sobre produtividade, inovação, capitalismo funcionando. Não é. A notícia é sobre liquidez barata fabricada por bancos centrais que inflou o valuation desses gigantes a níveis que nenhuma escola de negócios honesta justificaria. Tire o subsídio monetário e veja o castelo de cartas. O que se vê é o lucro reportado; o que não se vê é a poupança alheia confiscada via inflação para sustentar a festa.
Enquanto isso, o brasileiro produtivo trava decisão de investimento, segura contratação, adia compra de equipamento, tudo porque nove pessoas em Brasília vão decidir amanhã se a vida dele fica mais cara ou mais barata. Isso não é economia de mercado, é economia de coleira. O mercado livre seria deixar as taxas surgirem do encontro real entre poupadores e tomadores, sem o ilusionista monetário no meio. Mas confessar isso seria admitir que o cargo do banqueiro central é dispensável, e nenhuma classe sacerdotal jamais decretou a própria extinção.
O pregão de hoje não foi sobre empresas. Foi sobre quem manda no seu bolso. E a resposta, doa a quem doer, não está no balanço da Microsoft.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.