Olha o espetáculo: o Ibovespa e o dólar passaram o dia inteiro imóveis, aguardando que um funcionário público americano abrisse a boca sobre juros e que diplomatas conversassem com um regime que enforca mulher por cabelo aparecendo. Quer dizer, a bolsa brasileira, que deveria refletir a produtividade de trabalhadores e empresas daqui, está hipnotizada com o próximo discurso de Jerome Powell. É como se a orquestra inteira parasse para ouvir o pigarro do maestro de outra sala.

O fato concreto é que o capital financeiro global virou refém de duas variáveis que nada têm a ver com a criação de riqueza real. A primeira é a taxa de juros que um comitê de burocratas em Washington decide no tapa, com base em modelos econométricos que erraram a inflação pós-pandemia por uma margem que envergonharia um meteorologista de beira de estrada. A segunda é a geopolítica de um Oriente Médio onde cada diplomata americano que aperta a mão de um aiatolá está, na prática, legitimando um regime que financia terror desde 1979. E o mercado aplaude, porque menos tensão significa petróleo mais barato, que significa menos inflação, que significa que o tal comitê pode cortar juros, que significa festa nos ativos de risco. Seguiu a trilha? Cada elo dessa corrente passa por um gabinete estatal.

Me diz uma coisa: em que momento decidimos que o preço dos ativos brasileiros deveria depender de um senhor que imprime dólar ao bel-prazer e de teocratas que prendem adolescentes por dançar? A resposta é conhecida de quem tem estômago para encará-la. Decidimos isso no momento em que aceitamos que a moeda fosse um monopólio estatal, que o crédito fosse manipulado por decreto e que a economia global girasse em torno de uma moeda de reserva sustentada não por ouro, não por produtividade, mas pela confiança cada vez mais frágil de que o Tesouro americano honrará dívidas impagáveis.

E o Brasil nesse tabuleiro? Figura decorativa. Nosso Banco Central, que deveria defender o poder de compra do brasileiro, passa o dia olhando para os gráficos de Nova York antes de decidir qualquer coisa. Nosso Ministério da Fazenda gasta como marinheiro bêbado e depois pede para o mercado entender que o arcabouço fiscal é levado a sério. O resultado é que o real oscila não pelo que fazemos, mas pelo que os outros deixam de fazer. Uma nação soberana que terceirizou o destino do próprio dinheiro para humores alheios não é soberana coisa nenhuma, é província.

Há uma ironia cruel no fato de que negociações de paz, algo supostamente bom, sejam celebradas pelo mercado pela razão mais torta possível: porque reduzem o custo das commodities e, portanto, facilitam a continuidade da farra monetária. Quer dizer, a paz vira insumo da festa da liquidez. Ninguém está pensando nos iranianos presos, ninguém está pensando nos israelenses sob foguete, todo mundo está pensando no rendimento do próximo trimestre. Isso não é capitalismo, isso é capitalismo de compadrio elevado à escala planetária, onde o bem-estar das massas financeiras pesa mais que a liberdade de povos inteiros.

Enquanto o investidor brasileiro médio refresca a tela à espera da próxima fala do Fed, vale lembrar uma verdade antiga e incômoda: riqueza de verdade não nasce de cortes de juros, nasce de poupança, trabalho, propriedade segura e previsibilidade das regras do jogo. Tudo aquilo que o Estado brasileiro combate sistematicamente há décadas. O resto é teatro de marionetes com cordas puxadas de Washington, e a plateia aplaudindo sem perceber que pagou caro pelo ingresso.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.