O pregão de hoje tem três legendas coladas na mesma manchete, e vale separar cada uma antes que o leitor engula a narrativa oficial. Corte do PIS/Cofins na gasolina, reunião do IDP com o ministro da Fazenda e a nova regra de movimentação em conta corrente. Parece pauta técnica, é pauta política. Cada item desses mexe no bolso de quem trabalha, e cada um deles chega embrulhado num discurso de competência administrativa que não resiste a dois minutos de aritmética honesta.

Comecemos pelo combustível, que é sempre o carro-chefe da demagogia tributária. Reduzir PIS/Cofins da gasolina não é favor, é devolução parcial de um confisco que nunca deveria existir no volume em que existe. E mesmo essa devolução vem com pegadinha, porque toda renúncia fiscal no Brasil contemporâneo é compensada por algum aumento em outra alíquota, algum imposto novo travestido de contribuição, alguma taxa que aparece três meses depois numa medida provisória que ninguém leu. O que se vê no posto é o centavo a menos na bomba; o que não se vê é o real a mais que sai por outra porta. Esse é o jogo, e ele é velho como o próprio Tesouro.

O encontro no IDP merece atenção especial, porque é ali que se revela a natureza do arranjo. Um ministro da Fazenda dando palestra num think tank privado para uma plateia selecionada de banqueiros, gestores e jornalistas amigos é exatamente o tipo de cerimônia em que o Estado e o andar de cima selam acordos que o contribuinte comum só vai sentir no extrato. Siga o dinheiro, sempre. Quem patrocina a instituição, quem paga as consultorias, quem vai levar a próxima licitação, quem já comprou o título público que vai ser remunerado pela alíquota que o ministro anunciar amanhã. A plateia bate palmas porque a plateia é beneficiária direta. O operário que abastece o Uber é que vai pagar a conta, e ele sequer foi convidado.

A novidade da conta corrente completa o quadro com aquela elegância burocrática que sufoca sem gritar. Cada nova exigência de reporte, cada novo limite, cada novo cruzamento de dados entre Receita e bancos é mais um fio da rede que transforma o cidadão em suspeito permanente. Vende-se como combate à sonegação, entrega-se como vigilância total sobre poupança alheia. O fim da linha desse caminho é conhecido, e não é bonito. Quando o Estado sabe cada centavo que entra e sai da sua conta, ele não precisa mais tirar pela força; ele tira pela obediência antecipada.

O Ibovespa e o dólar reagem ao conjunto da obra com a frieza de quem já viu esse filme. Bolsa oscila porque precifica não o corte pontual, mas a desconfiança estrutural de que o buraco fiscal continua aberto e alguém vai pagar. Câmbio sobe quando o mercado percebe que a gastança não desacelera, apenas troca de fantasia. Alívio aqui, aperto ali, e a conta consolidada continua crescendo no mesmo ritmo vergonhoso de sempre. Investidor sério não lê a manchete, lê a planilha, e a planilha diz que o superávit prometido segue sendo miragem.

No fim do dia, fica o retrato de um país que discute alíquota quando deveria discutir o tamanho da máquina que consome essas alíquotas. Enquanto o debate público se ocupar com qual tributo sobe ou desce três pontos, o Leviatã continuará gordo, e toda tentativa de emagrecê-lo pelas beiradas é exercício de ilusionismo. A única reforma tributária honesta é a que corta gasto, não a que rearranja confisco. O resto é espetáculo para anestesiar contribuinte na hora do abate.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.