O pregão desta quinta abriu nervoso e o motivo não foi balanço de empresa, não foi dado de inflação, não foi decisão de juros lá fora. Foi manchete política. Uma notícia conectando o senador Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro fez o Ibovespa oscilar e o dólar subir mais um degrau, num daqueles movimentos que os comentaristas de televisão chamam piedosamente de "efeito eleitoral", como se fosse fenômeno meteorológico, e não o resultado previsível de uma economia inteiramente refém da agenda política de Brasília.
Olha, é preciso parar de fingir surpresa. Quando uma praça financeira inteira treme porque um sobrenome apareceu ao lado de um banqueiro numa reportagem, isso não é sinal de mercado saudável reagindo a informação relevante. É sintoma de doença crônica. Mercado livre não fica esperando o que o filho do ex-presidente conversou com quem detém licença bancária; mercado livre precifica produtividade, capital, risco real. O que estamos vendo é precificação de proximidade com o poder, que é coisa muito diferente.
E aqui vale fazer aquela pergunta que ninguém na imprensa econômica gosta de fazer: quem ganha com cada movimento desses? Banco autorizado pelo Banco Central, regulação que protege o já estabelecido, ano eleitoral com bilhões em fundo partidário e em propaganda compulsória, tudo isso forma um arranjo onde o dinheiro do trabalhador, descontado em folha antes mesmo de cair na conta, viaja por canais que ele jamais autorizou e financia jogos que ele jamais entenderia. Quer dizer, o sujeito pega ônibus às cinco da manhã para sustentar um ecossistema em que senador e banqueiro discutem destino de fortuna enquanto o dólar dele encarece o pão.
Há aqui uma falácia antiga que volta com roupa nova a cada ciclo. Dizem que "o mercado precisa de previsibilidade política", como se a solução fosse domesticar os políticos, quando a verdadeira solução seria amputar o poder que esses políticos exercem sobre a economia. Se o senador X conversar com o banqueiro Y não pudesse, por desenho institucional, alterar o preço de absolutamente nada que o brasileiro consome, ninguém estaria olhando para essa reportagem. O problema não é a reportagem. O problema é que num país onde o Estado decide quem empresta, a quanto empresta, com que garantia empresta e para quem socializa o prejuízo, tudo vira informação privilegiada.
O capitalismo de compadrio, esse arranjo em que empresário ungido e burocrata bem posicionado dividem o butim regulatório, não é uma deformação do mercado, é o oposto do mercado. É exatamente aquilo contra o qual qualquer pensamento econômico sério sempre alertou: a aliança entre poder político e dinheiro grande, com o pequeno produtor, o trabalhador e o consumidor pagando a fatura por dentro da inflação, dos impostos e do dólar mais caro. E não adianta torcer pelo time A ou pelo time B na próxima eleição, porque o arranjo sobrevive a todos eles. Sobrevive porque é o arranjo que produz a riqueza dos que o operam.
Enquanto o brasileiro comum acompanha o noticiário tentando entender se deve guardar dólar, comprar imóvel ou rezar, a engrenagem segue produzindo o de sempre: privatização dos lucros para quem está na foto, socialização dos prejuízos para quem está no busão. O Ibovespa não cai por causa do Flávio. O dólar não sobe por causa do Vorcaro. O Ibovespa cai e o dólar sobe porque o país, há décadas, escolheu construir uma economia onde tudo que importa depende de quem está sentado em qual cadeira em Brasília. E mercado que depende de cadeira não é mercado, é cortesia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.