Mais um pregão começa com a manchete olhando para fora, como se o destino do real dependesse exclusivamente do humor de um aiatolá ou da paciência de um diplomata americano. O Ibovespa e o dólar reagem ao impasse nas negociações entre Estados Unidos e Irã, ao boletim Focus e à decisão de juros no Japão, e a narrativa pronta já está ali, embalada para consumo, sugerindo que se Trump espirrar e Teerã tossir, nossa bolsa pega gripe. É verdade pela metade, e meia verdade em economia é mentira inteira com terno bem cortado.
Olha, o noticiário internacional importa, ninguém aqui é ingênuo. Mas reparem na coreografia. Toda vez que o Focus piora, toda vez que a expectativa de inflação sobe mais um décimo, toda vez que o juro real brasileiro encosta nas alturas que envergonhariam até banqueiro otomano do século dezenove, surge convenientemente um vilão estrangeiro para roubar a cena. Petróleo subiu? Culpa do Oriente Médio. Dólar abriu em alta? Culpa do Fed. Bolsa caiu? Culpa do Banco do Japão. E o buraco fiscal cavado com retroescavadeira em Brasília, esse fica ali no canto, esperando educadamente sua vez de não ser mencionado.
O Japão, aliás, oferece a aula que ninguém quer assistir. Décadas mantendo juro artificialmente no chão para subsidiar uma máquina pública obesa, e agora colhe o que plantou: uma economia anestesiada, demografia em colapso e um banco central refém das próprias decisões pretéritas. É o que acontece quando se confunde dinheiro barato com prosperidade, e gastança com política social. O preço chega sempre, com juros compostos e correção monetária da realidade. Pergunte a qualquer aposentado japonês se valeu a pena.
Quanto ao impasse americano-iraniano, vale a pergunta que economista de banco não faz porque depende do andar de cima: quem ganha com a tensão? Siga a trilha. Petroleiras estatais, complexos industriais militares, intermediários financeiros que cobram pedágio em cada transação geopolítica, governos endividados que adoram uma boa crise externa para justificar imposto novo. O cidadão comum, esse aparece apenas no fim da fila, pagando combustível mais caro e ouvindo discurso sobre sacrifício patriótico.
O Focus de hoje, esse documento semanal que deveria ser leitura obrigatória nas escolas, conta a história verdadeira em letras miúdas. Inflação esperada teimando em não ceder, crescimento medíocre virando expectativa permanente, juro estrutural altíssimo porque ninguém acredita mais nas promessas fiscais do governo. Não é o aiatolá que mantém a Selic onde está. É o ministro brasileiro que assina diariamente a conta que o filho do leitor vai pagar daqui a vinte anos. E imprimir dinheiro para fingir que o problema sumiu é o velho truque do alquimista, transformar chumbo em ouro pela força do decreto, sempre termina com o reino quebrado e o povo amaldiçoando o rei.
No fim, o pregão de hoje é apenas mais um capítulo de uma novela cujo enredo já conhecemos de cor. Lá fora há ruído, sim, mas é cá dentro que o roteiro foi escrito, ensaiado e está sendo encenado em prejuízo do espectador cativo. O brasileiro que trabalha não está perdendo poder de compra porque o Irã ameaça fechar Ormuz. Está perdendo porque alguém em Brasília descobriu, há muito tempo, que é mais fácil viver do bolso alheio do que do próprio trabalho. O resto é teatro com figurino caro pago no cartão do contribuinte.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.