O Ibovespa abre o pregão olhando para os lados como pedestre em rua sem semáforo, e o dólar faz o ginástico de sempre, sobe quando o Irã rosna, recua quando Pequim acena, e ninguém no andar de cima do mercado brasileiro parece ter mais ideia do que o próximo telefonema de um general persa ou de um burocrata chinês pode fazer com a poupança do aposentado de Pirassununga. Essa é a fotografia do capitalismo regulado pela geopolítica das bombas e pela canetada dos comitês monetários, um arranjo que tem tudo, menos a tal racionalidade que os manuais prometeram.

Vamos ao que importa. A China decide hoje o que fazer com sua taxa básica, e o mundo inteiro fica olhando para Pequim como se ali houvesse algum oráculo. Não há oráculo nenhum. Há um punhado de planejadores tentando adivinhar, com os preços que eles mesmos distorceram, quanto crédito injetar numa economia que já está afogada em estímulo, dívida imobiliária e empresas zumbis que sobrevivem apenas porque o Estado decidiu que devem sobreviver. Quando o juro vem mais baixo, os mercados festejam como criança ganhando doce, esquecendo que cada ponto cortado é mais álcool servido ao bêbado que já está caído na sarjeta.

E o Irã, ah, o Irã. A cada rumor de escalada, o barril dispara, e o brasileiro paga mais caro no posto sem ter sequer pisado em Teerã. Pense bem, o cidadão que acorda às cinco para pegar dois ônibus financia, pelo bolso, decisões tomadas em gabinetes onde ele não tem voto, nem voz, nem direito de réplica. É a globalização das contas a pagar e a localização dos lucros. O petróleo subindo significa inflação importada, significa que o Banco Central terá desculpa pronta para manter o juro nas alturas, significa que a dívida pública brasileira ficará ainda mais cara de rolar, e adivinha quem paga a conta dessa rolagem? Não é o ministro sorrindo na coletiva.

O detalhe que ninguém comenta é que toda essa coreografia, mísseis aqui, juros ali, dólar dançando entre os dois, só existe na escala que existe porque o sistema monetário global virou um cassino administrado por uns poucos bancos centrais que imprimem moeda para financiar guerras, subsidiar amigos e socorrer bancos amigos dos amigos. Se o dinheiro fosse coisa séria, ancorado em algo real, nenhum aiatolá teria poder para mexer com o Ibovespa, e nenhum mandarim em Pequim ditaria o humor da bolsa de São Paulo. Mas o dinheiro virou papel, o papel virou pixel, e o pixel virou ferramenta de guerra.

O investidor brasileiro, esse pobre coitado, é orientado a olhar para gráficos, índices, projeções, como se a economia fosse meteorologia. Não é. É política armada disfarçada de planilha. Quando o petróleo sobe, alguém ganha, e geralmente é quem estava posicionado antes da notícia, ou seja, quem tinha o telefone certo, o amigo certo no ministério certo. O resto do mercado é gado correndo atrás do boi da frente, e o boi da frente, surpresa, está sendo conduzido por um vaqueiro que ninguém vê.

Fica a pergunta que o noticiário não faz: até quando vamos aceitar que a saúde financeira de uma nação dependa do humor de teocratas, da prudência de comunistas e da generosidade de banqueiros centrais? A resposta honesta é desconfortável. Vamos aceitar até o dia em que cada cidadão entender que liberdade econômica não é luxo de rico, é a única vacina contra um mundo em que sua aposentadoria é decidida por gente que não sabe seu nome e não daria a mínima se soubesse.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.