O pregão desta semana entra com o roteiro de sempre, e é justamente a previsibilidade do roteiro que deveria assustar quem ainda acredita em ficção econômica oficial. A inflação brasileira volta a apertar o consumidor, o Ibovespa oscila entre o susto e a euforia conforme o humor de Washington, e o dólar dança ao som de dois indicadores americanos, o PIB e o PCE, como se a sorte do trabalhador de Anápolis dependesse do que um burocrata de Virginia vai anotar numa planilha. Quer dizer, depende mesmo. E essa dependência não é acidente do destino, é projeto de décadas.
O que se vê é a manchete confortável, inflação resiliente, PIB americano sólido, mercado em compasso de espera. O que não se vê é a engrenagem por trás: um Tesouro brasileiro que gasta como bêbado em final de festa, um Banco Central que finge surpresa toda vez que o IPCA estoura, e uma classe política que descobriu há muito tempo que imprimir dívida rende mais voto do que cortar mordomia. A conta dessa farra não aparece no boletim Focus, aparece no carrinho do supermercado, no aluguel que subiu de novo, na conta de luz que virou item de luxo. O imposto inflacionário é o único tributo que não precisa passar pelo Congresso, e por isso mesmo é o preferido de quem governa.
Olha, é curioso observar o ritual matinal do mercado. Analistas de banco passam horas dissecando se o núcleo do PCE americano vai vir em 0,2 ou 0,3 por cento, como se isso fosse mover montanhas, enquanto ignoram solenemente que a dívida pública brasileira caminha para territórios que países sérios consideram suicídio fiscal. O dólar não sobe porque a economia americana está boa, sobe porque a brasileira está sendo deliberadamente esfaqueada por dentro, e o mercado precifica esse esfaqueamento com a frieza de quem já viu o filme dezenas de vezes. Cada centavo a mais na taxa de câmbio é um pedaço de poupança que evaporou no caminho entre o salário e a prateleira.
Me diz uma coisa, quem ganha com essa novela? Siga o dinheiro e a resposta aparece sem esforço. Ganha o governo, que arrecada mais a cada inflação que ele mesmo cria, porque tributo é cobrado em valor nominal e a base sobe automaticamente. Ganham os grandes detentores de dívida pública, que recebem juros gordos sobre um país que produz pouco e gasta muito. Ganham os bancos, que intermediam essa orgia com spread de país tropical. Perde quem trabalha, quem poupa, quem produz, quem tenta investir no negócio próprio e descobre que a Selic de dois dígitos torna qualquer empreendimento honesto inviável diante do conforto de financiar o Estado.
O mais cínico nessa coreografia é a tentativa de transferir o foco para os indicadores externos. Sim, o PIB americano importa, o PCE importa, o Fed importa. Mas o Brasil tem um problema que é estritamente doméstico, fabricado em Brasília com matéria-prima nacional: gasto público fora de controle, intervencionismo crescente, ataque sistemático à segurança jurídica, e uma elite intelectual que ainda repete os mantras setentistas como se nunca tivessem fracassado em todos os lugares onde foram aplicados. Culpar o cenário externo é o álibi favorito de quem tocou fogo na própria casa e agora reclama do vento. A casa está pegando porque alguém ateou fogo, e esse alguém mora em Brasília, não em Washington.
No fim do dia, o pregão fecha, o noticiário troca de assunto, e o brasileiro vai dormir com um real um pouquinho menor no bolso, sem saber direito por que. Amanhã será outro indicador, outro discurso, outra reunião do Copom para administrar a febre sem tratar a infecção. A doença tem nome, tem endereço, tem culpados conhecidos, e segue avançando porque é rentável demais para quem manda. Inflação não é fenômeno climático, é decisão política. E o dia em que o brasileiro entender isso, o mercado vai precisar de muito mais que um PCE para explicar a confusão.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.