Pregão morno, volume raquítico, gringo de bermuda na praia comendo peru, e o Brasil olhando para o próprio umbigo fiscal como quem olha para um dente que dói há meses e ninguém quer arrancar. É esse o quadro de hoje. O mercado, na falta da referência americana, vira o pescoço para Brasília e pergunta a mesma coisa que vem perguntando há trimestres: vocês vão cortar gasto ou vão continuar fingindo que arrecadação extraordinária é política fiscal séria? A resposta, todo mundo já sabe, é a segunda. Por isso o dólar não cai, por isso a bolsa não engata, por isso o juro futuro continua precificando um país que escolheu a fogueira em vez do espelho.

Quer dizer, é fascinante a coreografia. Anuncia-se um pacote, vaza-se uma medida, recua-se da medida que vazou, troca-se o ministro de lugar na mesa, e ao final do teatro o resultado fiscal é exatamente o mesmo: gasto crescendo acima da inflação, receita correndo atrás com martelada tributária, e a dívida pública subindo a ladeira como caminhão sem freio. O investidor estrangeiro, esse que muita gente finge desprezar mas cuja ausência aperta o câmbio em uma semana, lê o balanço e faz a única coisa racional: cobra prêmio. O prêmio se chama dólar a patamar desconfortável e juro real entre os mais altos do planeta. Não é maldade do mercado, é aritmética.

Olha, existe uma fábula confortável que repetem nos jornais oficiais, a de que o problema é a desconfiança irracional, a especulação, o agente econômico de má vontade. É a versão moderna daquela história em que o rei culpa o vento por derrubar o castelo de palha. O castelo é de palha porque foi construído de palha. O governo gasta mais do que arrecada, financia o rombo com dívida, paga juros estratosféricos sobre essa dívida, e ainda quer que o mercado aplauda. Quando o sujeito que paga a conta começa a pedir mais retorno, isso não é especulação, é instinto de sobrevivência.

E aqui mora a pergunta que ninguém quer fazer alto, a pergunta seguindo a trilha do dinheiro. Para onde vai esse gasto que não pode ser cortado? Vai para emenda parlamentar opaca, vai para programa social que virou clientela eleitoral, vai para subsídio setorial cuja contrapartida é financiamento de campanha, vai para uma máquina administrativa inchada que serve aos seus próprios funcionários antes de servir ao cidadão. Cada centavo que se recusa a cortar tem dono, tem padrinho, tem assento garantido. O contribuinte, esse, paga e fica em pé no fundo da sala.

O que se vê hoje é o pregão lateral, o dólar oscilando dentro de uma faixa estreita, o Ibovespa sem direção. O que não se vê é a destruição silenciosa de capital produtivo que esse arranjo provoca diariamente. Cada ponto a mais de juro real é uma fábrica que não se constrói, um emprego que não se cria, um jovem que não estuda porque o pai perdeu o pequeno negócio. A conta fiscal não é uma planilha abstrata em Brasília, é a vida concreta de milhões de pessoas que nunca foram consultadas sobre essa farra e cujo trabalho será confiscado pela próxima rodada de imposto ou pela inflação que virá depois quando a impressora for ligada de novo.

O feriado americano termina amanhã, o gringo volta da praia, e o Brasil continuará com o mesmo problema que tinha ontem, anteontem e há vinte anos. A diferença é que cada ciclo dessa novela cobra mais caro o ingresso. Em algum momento, alguém terá coragem de dizer a verdade óbvia que ninguém quer ouvir: não existe almoço de graça, não existe gasto sem dono, e não existe país sério que confunda crescimento com endividamento. Até lá, o mercado precifica o que vê. E o que vê não é bonito.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.