O Ibovespa abre o dia olhando para três telas ao mesmo tempo, a tarifa que Trump anuncia contra produtos brasileiros, o relatório ADP de emprego americano e o livro Bege do Federal Reserve, e o leitor desavisado é levado a acreditar que tudo isso é destino, fatalidade, força da natureza. Não é. É a consequência matemática de décadas de escolhas erradas feitas por gente que nunca pagou a conta do erro que cometeu. Quando um país constrói sua economia em cima de commodity, gastança pública e bondade de credor estrangeiro, qualquer espirro em Washington vira pneumonia na Faria Lima. O dólar sobe, o juro futuro abre, e o noticiário trata como se fosse meteorologia, quando na verdade é boletim médico de um paciente que se recusa a parar de fumar.
A tarifa de Trump não é o problema, é o sintoma. O problema é que o Brasil exporta soja, minério e carne para depois importar inflação, desemprego e humilhação diplomática toda vez que algum presidente americano resolve fazer média com seu eleitorado interno. Quem vive de pires na mão não pode reclamar quando o dono da mesa decide mudar o cardápio. E aqui está o detalhe que ninguém em Brasília quer admitir, a vulnerabilidade externa do país não foi causada por Trump, foi causada por sucessivos governos que escolheram torrar reserva, inchar Estado e financiar campanha com crédito subsidiado em vez de construir uma economia produtiva, competitiva e respeitada. Trump apenas apertou o botão que estava ali, piscando, esperando alguém apertar.
O ADP americano sai hoje e vai mexer com tudo, porque o mundo inteiro continua descobrindo o preço do salário de quem nunca trabalhou na sua empresa. Quando o emprego americano vem forte, o Fed mantém juro alto, o dólar global engorda, e os emergentes apanham. Quando vem fraco, o Fed sinaliza corte, o dinheiro volta a passear pelo mundo e o Brasil ganha alguns meses de sobrevida até o próximo susto. Essa é a régua que mede a vida de quem mora num país sério, e essa é a corda que enforca quem mora num país que escolheu não ser sério. O livro Bege, por sua vez, é o termômetro que conta para o Fed o que está acontecendo na economia real americana, e ironicamente é mais relevante para o investidor brasileiro do que qualquer pronunciamento do nosso próprio Banco Central, que faz tempo virou ventríloquo do Tesouro.
Vale seguir o dinheiro, porque a trilha é sempre reveladora. Toda vez que o dólar dispara aqui, alguém ganha, e quase nunca é o trabalhador, o pequeno empresário ou o aposentado. Ganha o exportador subsidiado, ganha o banco que opera tesouraria, ganha o operador de derivativo que estava posicionado, e ganha, sobretudo, o governo, que vê sua dívida em dólar reduzir relativamente ao PIB nominal inflado. Perde quem produz, perde quem poupa, perde quem importa insumo para gerar emprego de verdade. É o velho esquema, socializa o prejuízo, privatiza o lucro, e quando alguém pergunta, a resposta padrão é culpar Trump, culpar a guerra, culpar o clima, culpar qualquer coisa menos a própria incompetência institucional.
O que não se vê nessa história toda é o capital que não vem, a fábrica que não abre, o emprego que não nasce, o salário que não sobe, tudo isso destruído silenciosamente por uma combinação tóxica de insegurança jurídica, carga tributária absurda e instabilidade política manufaturada. A tarifa americana é uma bofetada visível, mas o tapa diário que o brasileiro leva vem de dentro, vem do Congresso que aprova despesa sem fonte, vem do Executivo que confunde gasto com investimento, vem do Judiciário que legisla, vem do Banco Central que finge autonomia. Trump é o vilão conveniente de um roteiro em que os verdadeiros vilões já estavam escalados muito antes da câmera ligar.
O Ibovespa hoje vai oscilar com a notícia, o dólar vai testar resistências, os analistas vão produzir relatórios elegantes explicando o óbvio depois que o óbvio aconteceu, e amanhã tudo se repete. Mas o leitor atento sabe que país sério não treme quando outro país espirra. País sério tem indústria, tem poupança, tem moeda forte, tem instituições previsíveis. País que depende de tarifa americana para definir o humor da sua bolsa não tem mercado, tem cassino. E cassino, todo mundo sabe, sempre termina com a casa ganhando e o jogador convencido de que a próxima rodada é a da virada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.