Olha, tem coisa mais tragicômica do que começar a terça-feira vendo analistas de banco disputando vírgula no Boletim Focus enquanto o Estreito de Ormuz vira galeria de tiro? O Ibovespa e o dólar abrem o pregão fingindo que a inflação projetada para 2026 depende de uma reunião de economistas em São Paulo, quando na verdade depende de quantos barris de petróleo vão conseguir atravessar um canal de 33 quilômetros de largura cercado por aiatolás nervosos. É a velha ilusão de que o número impresso na planilha tem algum poder sobre a realidade lá fora. Não tem. Nunca teve.
O Boletim Focus é aquele ritual semanal em que o Banco Central pergunta para cem economistas o que eles acham que vai acontecer, calcula a média, e finge que isso é previsão. É astrologia com régua de cálculo. A função real daquele documento nunca foi antecipar o futuro, foi fabricar uma âncora psicológica para justificar o que a autoridade monetária já decidiu fazer de qualquer jeito. Quando o mercado inteiro passa a manhã esperando o Focus, o que ele realmente está fazendo é procurar permissão para precificar a incompetência do governo sem parecer desaforado.
E a tensão entre Estados Unidos e Irã, essa coisa que tratam como variável externa, é a coisa mais doméstica que existe no bolso do brasileiro. Cada porta-aviões que se desloca para o Golfo empurra o barril alguns dólares para cima, cada dólar no barril empurra a gasolina na bomba, e cada centavo na bomba empurra o frete, o pão, o tomate, o botijão. A guerra que parece distante está no carrinho do supermercado antes de estar no noticiário. E quem vai pagar essa conta não é o senador americano que vota pelo bombardeio, nem o clérigo iraniano que vota pelo enriquecimento de urânio, é o sujeito que acorda às cinco da manhã em Pirituba para pegar dois ônibus.
Me diz uma coisa: por que o Brasil, oitavo maior produtor de petróleo do planeta, com uma estatal que se gaba de autossuficiência, tem uma moeda que treme cada vez que um drone decola em Isfahan? A resposta está naquele ponto cego que os comentaristas de televisão nunca olham. Não é o petróleo que faz o real dançar, é a dívida pública brasileira, é o arcabouço fiscal de mentirinha, é a gastança que transformou o Tesouro em refém do humor do investidor estrangeiro. Quando a casa está de pé em palito de fósforo, qualquer vento do deserto derruba o telhado. A geopolítica só revela a fragilidade que a política fiscal fabricou em casa.
E aqui mora a piada que ninguém conta. O mesmo governo que passa o dia denunciando imperialismo em Washington depende desesperadamente de que o imperialismo em Washington mantenha o dólar forte, o petróleo fluindo e o apetite por risco em mercados emergentes. A retórica é anti-americana, a contabilidade é dolarizada, e a diferença entre uma coisa e outra se chama hipocrisia institucional. Quem paga essa esquizofrenia, de novo, é o mesmo de sempre: o trabalhador que não tem acesso a hedge cambial, não tem conta em Miami, e não consegue fugir do imposto inflacionário que vem embutido em cada reajuste do diesel.
A lição que o Focus nunca vai imprimir é esta: a volatilidade que sacode o mercado brasileiro hoje não é importada do Oriente Médio, é fabricada em Brasília e apenas detonada pelos mísseis alheios. Uma economia sólida atravessa guerra sem tremer. Uma economia podre racha no primeiro estampido. O resto é narrativa para entreter o noticiário das dez.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.