Olha o espetáculo. Investidor brasileiro acorda hoje conferindo se Tel Aviv amanheceu inteira, se Teerã respondeu, se o Estreito de Ormuz ainda deixa petroleiro passar, e só depois disso olha para o próprio quintal. Nesse meio-tempo, o calendário despeja PPI americano, vendas no varejo dos Estados Unidos e o balanço do primeiro trimestre do Banco do Brasil, tudo no mesmo dia, como se um pregão pudesse ser digerido por um estômago só. Quer dizer, o Ibovespa não é mais um índice, virou termômetro de febre alheia.
O PPI lá fora vai mexer com a curva de juros americana, que mexe com o dólar, que mexe com a Selic implícita, que mexe com o seu financiamento imobiliário aqui em Sorocaba. Repare na cadeia: quanto mais elos, mais fácil esconder quem fabricou o problema. Quando a impressora gira em Washington e o Tesouro empilha dívida em ritmo de guerra, a conta não some, ela viaja. Chega no Brasil disfarçada de "volatilidade externa", e os comentaristas de televisão fingem que é o tempo, não a decisão humana de gente com nome e endereço.
O Banco do Brasil divulga o 1T26 e o noticiário vai discutir lucro recorrente, ROE, inadimplência do agro. Tudo válido, tudo insuficiente. Banco público brasileiro não é empresa privada operando em mercado livre, é instrumento de política industrial fantasiado de instituição financeira. Cada ponto-base de margem subsidiada do Plano Safra é imposto que saiu do bolso do pintor de parede para garantir crédito barato a fazendeiro grande que, em mercado de verdade, captaria sozinho. Não existe almoço grátis, existe almoço pago por quem não está sentado à mesa.
E o varejo americano? Vai dizer se o consumidor de lá ainda aguenta o tranco da inflação represada, ou se já está rolando dívida no cartão a vinte e tantos por cento ao ano para continuar a fantasia. Bolsa subiu três anos seguidos em Wall Street com base em IA, recompra de ação e gastança fiscal trilionária. O dia em que o mercado descobre que parte daquilo era miragem, o estilingue volta com força, e a primeira coisa que aparece no espelho é o emergente, sempre o emergente, sempre o Brasil na fila do abate.
O dólar oscila e a manada acha que está vendo o mercado. Não está. Está vendo o resultado agregado de decisões políticas, monetárias e geopolíticas tomadas por gente que não responde ao eleitor e muito menos ao acionista. O Oriente Médio é pretexto perfeito: serve para justificar a alta do petróleo, a alta dos juros longos, a queda das bolsas e, convenientemente, a permanência de regimes de exceção em finanças públicas que já deveriam ter sido enterrados há vinte anos. Cada crise é desculpa para mais Estado, e mais Estado é a doença que se vende como remédio.
O Ibovespa de hoje vai fechar onde tiver que fechar, e amanhã alguém escreverá que "o mercado precificou". Não precificou nada. O mercado, esse organismo vivo que agrega o conhecimento disperso de milhões, está amordaçado por bancos centrais que fingem ser cientistas, por governos que fingem ser solidários e por analistas que fingem entender. Enquanto isso, a poupança do trabalhador derrete em silêncio, o agronegócio se endivida em dólar caro, e o Banco do Brasil entrega lucro que parece bom porque ninguém calculou o custo de oportunidade do capital sequestrado. O preço da ilusão sempre chega, e chega para quem não escolheu o jogo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.