Tem algo de profundamente perturbador num mercado que bate recordes enquanto o mundo pega fogo. O Ibovespa cruzou os 198 mil pontos hoje, décimo sexto recorde do ano, o dólar flerta com os R$ 4,99, e se você olhar só para o painel da B3 vai achar que o Brasil encontrou a fórmula da prosperidade eterna. Acontece que o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, está sob bloqueio naval americano desde ontem. Vinte mil navios retidos. Cadeias de fertilizantes, combustíveis e commodities sob pressão que não se via desde a crise de Suez em 1956. E o mercado brasileiro? Festa. Confete. Champanhe. Me diz uma coisa: quando foi que desconectar da realidade virou estratégia de investimento?

O PPI americano de fevereiro já tinha dado o aviso que ninguém quis ouvir: alta de 0,7% no mês, 3,4% em doze meses, o maior salto anual desde o início de 2025. Os dados de março saem hoje, e qualquer pessoa que entenda o mínimo de formação de preços sabe que um bloqueio em Ormuz não vai aliviar essa pressão, vai multiplicá-la. Bens subiram 1,1% num mês em que o petróleo ainda fluía normalmente. Agora imagine o que vem pela frente com o IRGC prometendo retaliação e a ONU emitindo alertas sobre colapso logístico. O preço ao produtor é a inflação de amanhã no supermercado de hoje. Quando o custo sobe na fábrica, ele não evapora por bondade do empresário, ele chega na gôndola, no posto de gasolina, na conta de luz. Quem disser o contrário ou é ingênuo ou está vendendo título do Tesouro.

Olha, o setor de serviços brasileiro já entendeu o recado antes do mercado financeiro. O PMI caiu de 53,1 para 50,1 em março, praticamente a linha que separa expansão de contração. Novos pedidos retraíram pela primeira vez em cinco meses. A pressão de custos atingiu o maior ritmo desde outubro. Quer dizer, o motor que sustenta dois terços do PIB brasileiro está engasgando, e o único motivo pelo qual não parou de vez é que o mercado de trabalho ainda gera vagas, provavelmente por inércia de contratos firmados antes do aperto. Quando essa inércia acabar, e ela sempre acaba, o sujeito que comprou Ibovespa a 198 mil vai descobrir que confundiu euforia com fundamento.

E tem a cereja do bolo geopolítico: Trump ameaçou tarifas de 50% sobre a China depois de relatórios indicando que Pequim estaria enviando armas ao Irã. A Suprema Corte já derrubou as tarifas anteriores como ilegais, então o governo americano está improvisando com investigações setoriais que dão no mesmo resultado por caminhos mais tortuosos. Cúpula bilateral marcada para maio em Pequim, o que significa que até lá o mercado vai oscilar ao sabor de cada tuíte e cada vazamento estratégico. O que ninguém quer admitir é simples: quando o maior comprador do mundo e o maior produtor do mundo se ameaçam mutuamente, quem paga a conta é o resto, inclusive o Brasil, que exporta soja para um e importa fertilizante do outro. O comércio internacional não é um jogo de xadrez entre dois jogadores; é um tabuleiro onde os peões, que somos nós, levam os golpes.

O investidor brasileiro está vivendo uma ilusão de ótica monetária. O dólar cai, o Ibovespa sobe, e todo mundo conclui que estamos bem. Mas o dólar cai porque o Federal Reserve ainda não digeriu o choque de Ormuz nos preços, e quando digerir, ou sobe o juro e mata o apetite por risco, ou deixa a inflação correr e mata o poder de compra. Nos dois cenários, o capital estrangeiro que hoje infla a bolsa brasileira vai embora tão rápido quanto chegou. Dinheiro estrangeiro não tem patriotismo, tem planilha. E planilha não mente, mesmo quando o Ibovespa finge que sim.

A verdade é que o Brasil está sentado em cima de três bombas, relógio com o bloqueio de Ormuz pressionando commodities, o setor de serviços perdendo fôlego, e uma guerra comercial sino-americana que pode explodir a qualquer momento, e o mercado decidiu que a melhor estratégia é ignorar o tique-taque e comemorar o recorde. Já vimos esse filme antes. Termina sempre do mesmo jeito: com alguém perguntando como ninguém viu o óbvio. A resposta também é sempre a mesma: viram, mas preferiram não estragar a festa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.