O pregão brasileiro reabre depois do feriado com os olhos pregados num número que sai em Washington, não em Brasília. O tal do payroll, relatório de geração de empregos americanos, vai ditar se o dólar sobe ou desce por aqui, se a bolsa abre no azul ou no vermelho, se o cafezinho da Faria Lima terá sabor de festa ou de velório. Quer dizer, a soberania monetária brasileira tem um detalhe técnico: ela existe até as dez e meia da manhã do horário de Brasília, quando o Bureau of Labor Statistics aperta o botão e lembra a todos quem manda no quintal.
Há uma ironia que ninguém na imprensa econômica tem coragem de nomear. Passamos décadas ouvindo que a globalização nos tornaria sujeitos do nosso destino, mais conectados, mais maduros, mais inseridos no concerto das nações. O resultado prático é que um aumento de duzentos mil postos de trabalho no Texas tem mais efeito sobre o seu financiamento imobiliário em Belo Horizonte do que qualquer voto que você tenha dado nos últimos vinte anos. A maturidade prometida virou dependência travestida de modernidade, e ninguém devolve o ingresso.
Olha, vale seguir o dinheiro com calma. Quando o payroll vem forte, o mercado aposta que o Federal Reserve segura os juros lá em cima, o dólar engorda no mundo todo e o real apanha. Apanhando o real, sobe a gasolina, sobe o trigo, sobe tudo o que vem em contêiner, e o Banco Central daqui é obrigado a manter a Selic em níveis que estrangulam qualquer empresário que ainda tenha a coragem de produzir algo neste país. Quem ganha? O rentista que vive de título público, o governo que rola sua dívida nas costas do contribuinte e os bancos que intermedeiam a festa. Quem paga? O sujeito que acorda às cinco da manhã para empreender numa economia onde o dinheiro custa mais que a ideia.
O mais grotesco é o ritual de comentaristas explicando o óbvio com cara de oráculo. Toda primeira sexta-feira do mês, a mesma encenação: gravatas engomadas decifrando planilha americana como se fosse pergaminho do Mar Morto, enquanto a pauta nacional, reforma administrativa empurrada com a barriga, arcabouço fiscal que ninguém entende, gastança eleitoral mascarada de investimento, dorme tranquila no fundo da gaveta. Conveniente, não? O barulho lá fora abafa o silêncio aqui dentro.
Há um princípio antigo que a gente teima em ignorar: quando uma economia precisa de muleta cambial, juros estratosféricos e relatório de emprego alheio para definir seu humor diário, é porque ela não foi construída sobre produção real, foi montada sobre engenharia financeira e promessa estatal. O pregão de hoje vai oscilar conforme o vento de Washington, e amanhã a coluna econômica padrão dirá que foi tudo "esperado pelo mercado". Não foi esperado, foi imposto, e há diferença abissal entre as duas palavras.
Enquanto isso, o cidadão comum, que não tem mesa de operações nem terminal Bloomberg, descobre na padaria que o pão amanheceu mais caro porque um burocrata americano divulgou um número que ele nunca vai ler. É essa a tal da economia globalizada que nos venderam: a liberdade de sofrer consequências de decisões nas quais ninguém perguntou nossa opinião. Soberania monetária de país emergente é piada que só não tem graça porque a conta chega de verdade.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.