Bastou uma pesquisa eleitoral com números considerados favoráveis por parte da mesa de operações para o Ibovespa engatar alta firme e o dólar recuar contra o real. Olha, isso não é análise, é leitura de tarô com terno e gravata. Nada mudou na economia real entre ontem e hoje. A carga tributária continua sufocante, o Estado continua gastando o que não tem, a máquina pública segue produzindo regulação a jato, e o Banco Central segue equilibrando pratos numa corda bamba armada pelo próprio Tesouro. O que mudou foi a expectativa sobre quem vai ocupar a cadeira que deveria ter sido esvaziada há décadas.

Me diz uma coisa: por que um país precisa que uma pesquisa política dê certo para os ativos respirarem? Porque a economia brasileira virou refém da caneta. Cada preço na tela da corretora hoje embute uma aposta sobre humor de ministro, sobre próxima medida provisória, sobre qual lobby vai ser contemplado no próximo pacote. Isso não é mercado no sentido clássico da palavra; é cassino regulatório. E como todo cassino, quem sempre ganha é a banca, ou seja, o próprio governo que emite a moeda com que se apostam as fichas.

Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. Quem lucra com o dólar caindo na véspera de uma pesquisa favorável? Fundos que já estavam posicionados, insiders que leem o vento antes do vento chegar, e o Tesouro, que rola dívida mais barata quando o câmbio dá uma trégua. Quem paga a conta? O pequeno poupador que viu seu poder de compra evaporar nos últimos anos, o empresário do interior que não consegue planejar três meses à frente, o pai de família que abastece o carro e não entende por que o mesmo litro de gasolina custa o triplo do que custava há uma década.

Existe uma ilusão de ótica muito conveniente aqui. Bolsa em alta e dólar em baixa são apresentados como sinal de saúde, quando são apenas sintomas de que os apostadores acreditam, por ora, que a farra vai desacelerar um pouco. Basta uma manchete ruim amanhã e o movimento se inverte inteiro, sem que uma única fábrica tenha aberto ou fechado no intervalo. Isso é o preço que se paga por ter atrelado o destino da economia produtiva à agenda de Brasília. Quando o político espirra, o setor privado pega pneumonia, e quando o político sorri para uma pesquisa, a bolsa se convence de que o inverno acabou.

O que ninguém quer dizer em voz alta é o óbvio: nenhuma pesquisa eleitoral resolve o problema estrutural. Enquanto o gasto público continuar crescendo acima da inflação, enquanto a dívida seguir sendo empurrada com a barriga, enquanto o Congresso legislar como se dinheiro nascesse em árvore, qualquer euforia de tela é empréstimo tomado ao futuro. A conta chega, sempre chega, e costuma chegar no pior momento possível, quando ninguém está mais olhando para a pesquisa que causou o rally.

O verdadeiro sinal de que a economia vai bem não é uma vela verde no gráfico do Ibovespa depois de uma sondagem eleitoral. É quando o cidadão consegue guardar dinheiro sem medo, contratar sem burocracia, empreender sem pedir licença, comprar sem sentir o bolso furar. Enquanto o rally depender de pesquisa e não de reforma, estamos apenas trocando de ilusão. E ilusão, no fim, se paga em moeda dura.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.