A manchã abre com a Bolsa e o câmbio reagindo à possibilidade de um acordo entre Washington e Teerã, e ninguém parece achar estranho que o preço da Petrobras, da Vale e do feijão importado oscile conforme o tom de uma reunião diplomática a dez mil quilômetros daqui. É a rotina silenciosa de uma economia que se acostumou a ser folha ao vento. O Brasil produz, o Brasil exporta, o Brasil endivida, e ainda assim o termômetro do dia é fixado por uma manchete sobre urânio enriquecido. Quer dizer, o mercado local virou apêndice nervoso do noticiário geopolítico, e isso não é acidente; é consequência de décadas escolhendo dependência em vez de robustez.

O raciocínio do operador é simples e revelador. Se há acordo, o petróleo cai, o dólar afrouxa globalmente, o capital estrangeiro topa flertar com emergentes, e o Ibovespa respira. Se não há, o barril sobe, o dólar engorda como refúgio, e o real apanha. Repare que em nenhum momento dessa equação aparece a produtividade brasileira, a poupança interna ou a confiança no contrato. O país inteiro vira variável dependente de uma função cujas constantes são definidas em Genebra, em Viena ou na Casa Branca. E o pior é que economistas de banco vão à televisão explicar tudo isso com cara de quem está analisando algo sofisticado, quando na verdade estão apenas narrando a humilhação em câmera lenta.

No mesmo dia em que o noticiário internacional faz preço, sai o PIB do trimestre, que deveria ser o evento doméstico mais relevante do mês. Mas o número virou ritual decorativo. Cresce um pouco, decepciona um pouco, vem revisado depois, e segue a vida. Por que? Porque ninguém mais acredita que o crescimento brasileiro venha de algo orgânico. Vem de gasto público inflado, de crédito subsidiado, de transferência forçada, de safra que Deus mandou, de minério que a China comprou. É crescimento por aluguel de circunstância, não por construção de capacidade. E todo mundo sabe disso, inclusive quem comemora.

Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. Cada centavo que o Tesouro toma emprestado para encenar atividade econômica é um centavo subtraído do investidor privado, que precisaria daquele capital para abrir, expandir, contratar, inovar. O governo entrega o cheque visível, a manchete amistosa, o programa com nome bonito; cobra a conta invisível em juros mais altos, câmbio mais frágil e produtividade que não decola. Quando o ministro sorri anunciando estímulo, alguém em algum lugar acaba de perder o emprego que nunca chegou a existir, e ninguém vai ao microfone defender esse desempregado fantasma. Não há lobby para o que não nasceu.

Há ainda a dimensão moral da coisa, que poucos ousam tocar. Uma nação que entrega ao Estado a tarefa de gerar prosperidade está, na prática, declarando incapacidade adulta. Está dizendo que não confia em si mesma para poupar, arriscar, criar e competir, e que prefere a tutela da burocracia ao desconforto da liberdade. O resultado dessa escolha está aí, no painel da Bolsa hoje, piscando vermelho ou verde conforme o aiatolá acorda de bom humor. Não é coincidência; é diagnóstico. Quem terceiriza o próprio destino econômico aceita, por contrato silencioso, ser refém do destino alheio.

O acordo com o Irã pode sair ou pode naufragar, o PIB pode vir morno ou tépido, o dólar pode fechar a R$ 5 e pouco ou a R$ 5 e muito, e nada disso muda a doença de fundo. O Brasil escolheu, década após década, o caminho do gasto fácil, da regulação asfixiante, da moeda manipulada e da poupança destruída pelo imposto inflacionário. Enquanto não houver coragem de inverter essa rota, qualquer manchete estrangeira terá mais poder sobre o nosso bolso do que qualquer ministério da Esplanada. Mercado livre não é luxo de país rico; é o que torna o país rico em primeiro lugar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.