O rali da inteligência artificial em Nova York fez o que nenhuma chancelaria conseguiu nas últimas semanas, varreu para debaixo do tapete a tensão geopolítica que dominava as manchetes e devolveu apetite ao risco. O Ibovespa abre embalado, o dólar perde força contra o real, e os operadores fingem que mísseis no Oriente Médio e fronteiras incandescentes na Europa são detalhe de rodapé. Hoje sai o JOLTS americano, aquele relatório de vagas em aberto que vira oráculo sempre que o Federal Reserve precisa de desculpa para mexer nos juros. Quer dizer, o humor do mundo inteiro hoje depende de uma planilha do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos e de quantos servidores a Nvidia conseguiu vender no trimestre.
Olha, há algo profundamente revelador nessa coreografia. O mercado não está precificando produtividade, está precificando a expectativa de que o dinheiro continuará barato, que o crédito continuará jorrando, que a impressora americana seguirá lubrificando o motor mesmo com inflação ainda teimosa. Toda euforia tecnológica das últimas décadas, da bolha das pontocom em diante, teve o mesmo combustível, juros artificialmente comprimidos transformando promessa em valuation e valuation em religião. Quando o crédito é fabricado em vez de poupado, o boom é inevitável e o estouro também. A diferença é só o tempo entre um e outro.
E o Brasil, que faz o Brasil nessa festa? Pega carona, como sempre. O real se valoriza não porque Brasília descobriu disciplina fiscal, não porque o Congresso votou alguma reforma decente, não porque o gasto público parou de crescer dois dígitos ao ano. O real sobe porque o dólar cai lá fora, e o investidor estrangeiro, com a barriga cheia de lucro em ações de IA, resolve apimentar a carteira com algum risco emergente. É a velha história, quando os americanos espirram, nós pegamos pneumonia; quando os americanos bebem champanhe, nós ganhamos uma taça de plástico no balcão. A política econômica daqui segue sendo terceirizada para o Federal Reserve, e os ministros da Fazenda das últimas três décadas aprenderam a chamar isso de estratégia.
Repare na contradição que ninguém quer encarar de frente. De um lado, falam em risco geopolítico, em guerras que podem escalar, em rotas comerciais ameaçadas, em petróleo que pode disparar. De outro, compram ações de empresas cujo valor de mercado já supera o PIB de países inteiros, apostando que máquinas vão substituir trabalhadores em escala industrial. Os dois movimentos não conversam, e justamente por isso convivem. O mercado virou um cassino onde cada mesa joga um jogo diferente fingindo que o cassino inteiro não pode ser fechado pelo dono a qualquer momento. E o dono, nesse caso, é o banco central que decide quando a música para.
O JOLTS de hoje vai dar pano para manga porque o jogo agora é decodificar sinal de fraqueza do mercado de trabalho americano como se fosse boa notícia. Se houver menos vagas, os juros caem mais rápido, e a festa continua. Se houver mais vagas, o Fed segura, e a festa estremece. Note bem o absurdo, estamos torcendo para que americanos percam oportunidade de emprego porque isso significa dinheiro mais barato para especulação. É essa a economia que o keynesianismo monetário produziu, uma em que destruição de riqueza real é interpretada como gatilho positivo para riqueza nominal. Toda vez que isso parece sustentável, alguém em algum andar alto está calculando há quanto tempo conseguirá vender suas posições antes do resto perceber.
O bolso brasileiro segue refém dessa engrenagem, e nossos governantes seguem confundindo sorte com competência. Quando o vento sopra a favor, posam de estadistas; quando vira, culpam o cenário externo. Mas o cenário externo é o mesmo para chilenos, mexicanos e peruanos, e cada um arranca um resultado diferente. A diferença chama-se instituições, freios ao gasto, respeito ao contrato, segurança jurídica, coisas pequenas que aqui são tratadas como detalhe enquanto o Planalto inventa nova rubrica para furar o teto. Enquanto a inteligência artificial salva o pregão lá fora, a estupidez fiscal aqui dentro segue cobrando juros que nenhum chip vai pagar por nós.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.