Repare na coreografia. Basta um telefonema entre chancelarias no Oriente Médio, três parágrafos de uma ata vinda de Washington e o balanço trimestral de uma fabricante de chips para que trilhões de reais mudem de mão em poucas horas no pregão brasileiro. Chamam isso de mercado eficiente. Eu chamo de termômetro de ansiedade coletiva, calibrado por gente que nunca pisou numa fábrica e que decide o destino do feijão no prato do trabalhador olhando para um gráfico de candle.

O alívio no Oriente Médio derruba o petróleo, o petróleo derruba a expectativa de inflação importada, a expectativa derruba o dólar, e o real sobe. Bonito no PowerPoint. Só que ninguém pergunta o óbvio: por que o preço da gasolina em Goiânia depende de uma escaramuça em Teerã? Porque há décadas o sistema monetário global foi sequestrado por uma engenharia financeira que transformou commodities em ativos especulativos, e moedas nacionais em derivativos do humor do Federal Reserve. O brasileiro paga o pato de uma guerra que não declarou, com um dinheiro que não controla, num mercado que não regula.

A ata do Fed é o capítulo mais cômico desse teatro. Um comitê de doutores reunido a portas fechadas decide, no chute erudito, qual deve ser o preço do dinheiro para 330 milhões de americanos e, por tabela, para sete bilhões de pessoas que orbitam o dólar. O leitor que ainda acredita em planejamento central deveria meditar sobre isso. Se uma dúzia de burocratas conseguisse calcular a taxa de juros correta, o socialismo soviético teria dado certo. Não deu. E não dá. O que existe é uma cartada por trás da outra, e a cada ciclo de erro nasce uma crise nova que servirá de pretexto para mais intervenção. É a espiral perfeita: o remédio fabrica a doença que justifica a próxima dose.

E aí entra a Nvidia, símbolo deste capitalismo de palco em que o valor de uma empresa pode dobrar porque um executivo soltou a palavra inteligência artificial num call de resultados. Não me entenda mal, a empresa é real, o produto é real, a engenharia é admirável. O que é fictício é a precificação. Quando o múltiplo de uma ação se desconecta da geração de caixa e passa a depender do entusiasmo narrativo, você não está mais diante de um mercado de capitais, está diante de uma tulipa holandesa com chip embutido. A festa dura enquanto durar a impressora.

Siga o dinheiro, sempre. Quem ganha quando o Ibovespa sobe num dia desses? O pequeno poupador da Vila Mariana? O comerciante de Campina Grande? Não. Ganha o gestor de fundo que estava posicionado, o operador que antecipou a notícia, o banco que cobra corretagem nos dois lados da mesa. O trabalhador descobre o resultado no jornal do dia seguinte, e quando o vento vira, é ele quem segura a conta via inflação, juros do cartão e desemprego. Privatizam-se os lucros do andar de cima, socializam-se os prejuízos do andar de baixo, e a imprensa econômica chama esse arranjo de normalidade.

O que se vê é o índice fechando em alta e a manchete celebrando. O que não se vê é a corrosão silenciosa da capacidade de poupar, de planejar, de produzir num país onde o preço de tudo depende de três variáveis decididas em três continentes diferentes, nenhuma delas aqui. Enquanto o brasileiro não entender que moeda forte não se decreta, que juros não se inventa em comitê e que riqueza não nasce de balanço trimestral inflado, continuaremos celebrando pregões verdes como quem comemora a temperatura amena dentro do forno. O forno continua ligado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.