Olha o espetáculo: investidor profissional, terno caro, terminal Bloomberg piscando, e o sujeito refrescando portal de notícia para saber se houve novo capítulo no processo do filho do ex-presidente. É assim que se forma preço de ativo no Brasil de 2026. O Ibovespa oscilou hoje reagindo a atualizações do caso Flávio, a ruídos geopolíticos vindos de fora, e, quase como obrigação burocrática, ao IBC-Br, aquele indicador que mede a atividade econômica e que aqui virou coadjuvante de enredo policial. Quer dizer, a economia real, a fábrica, o caminhão, o boi gordo, o contêiner no porto de Santos, tudo isso passou a valer menos, na formação do preço, do que a próxima delação premiada.

Me diz uma coisa: que tipo de país constrói um mercado de capitais onde o risco institucional se sobrepõe ao risco econômico? A resposta é simples e desconfortável. Um país onde o Estado inchou tanto, capturou tantos espaços, distribuiu tantos favores, criou tantos mecanismos de pressão sobre o setor privado, que decisão judicial vale mais que balanço corporativo. Quando a caneta de um juiz ou o humor de um procurador movem mais bilhões do que a safra recorde do agronegócio, o investidor racional não está olhando para fundamentos, está apostando em qual facção do poder vai prevalecer na semana que vem.

E olhe que ninguém fala do que não se vê. Cada ponto de volatilidade desses custa caro. Custa em capital que não vem, em projeto que não sai do papel, em pequena empresa que não consegue se financiar porque o prêmio de risco engole o spread. O empresário americano olha o Brasil, vê preço de ativo se mexendo por noticiário de inquérito, e simplesmente vai investir em outro lugar. O brasileiro paga essa conta no juro real mais alto do planeta, no câmbio que parece roleta, no poder de compra que evapora silenciosamente. Quem ganha com isso? Siga o dinheiro: o sistema financeiro que vive do giro, a burocracia que vive do caos, e os operadores políticos que vendem solução para problemas que eles mesmos criaram.

O IBC-Br, esse coitado, aparece no relatório como se fosse footnote acadêmica. A atividade econômica de verdade, a produção, virou ruído num ambiente onde a única coisa que importa é a próxima manchete. Há uma inversão brutal acontecendo, e ela não é acidental. Quanto mais o Estado controla, mais a política importa para o preço dos ativos. Quanto mais a política importa, menos o trabalho honesto, a poupança, o investimento produtivo, conseguem entregar retorno previsível. É o caminho da servidão pela via do tribunal, com a bênção das agências reguladoras e o aplauso dos editoriais.

O dólar reagiu a tensões geopolíticas porque, no fim, é isso que sobra quando a moeda local perde lastro de confiança. Não é movimento técnico, é fuga. O cidadão que compra dólar não está especulando, está protegendo o filho. O empresário que dolariza balanço não está sendo antipatriótico, está sendo realista. A moeda forte é refúgio porque a fraca virou instrumento de financiamento de gastança eleitoreira, e isso o mercado precifica antes mesmo que o Banco Central perceba. Inflação não é fenômeno climático, é decisão política, e o câmbio é o termômetro mais honesto que existe.

O que essa pregação revelou, mais uma vez, é que o Brasil construiu um capitalismo de balcão onde o lucro depende menos da entrega de valor ao consumidor e mais do acesso ao gabinete certo, da decisão favorável, do contrato público bem amarrado. Enquanto isso for verdade, nenhum analista técnico, nenhuma análise fundamentalista, nenhum modelo quantitativo vai conseguir prever o próximo movimento do índice. Porque o índice deixou de medir a economia. Ele virou pesquisa eleitoral em tempo real. E pesquisa eleitoral, todo mundo sabe, mente até a hora da apuração.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.