Olha o espetáculo. O Ibovespa e o dólar se contorcem hoje porque dois bureaus estatísticos, um em Brasília e outro em Washington, vão divulgar números que pretendem medir o impreensível: o preço médio da vida. Como se fosse possível tirar a média da dor de cabeça do dono da padaria com a dor de cabeça do executivo que compra vinho importado. O mercado finge que acredita, os jornalistas fingem que entendem, e o investidor pequeno é o único que paga a conta de verdade quando a engenharia desaba.
O IPCA brasileiro chega num momento curioso. O governo gasta como se a impressora fosse fonte natural de riqueza, o Banco Central tenta segurar a inflação com juros estratosféricos, e o resultado é aquela esquizofrenia macroeconômica em que o Estado pisa no acelerador fiscal e no freio monetário ao mesmo tempo. Quem segura o volante é o contribuinte, que paga o pedágio dos dois lados. Quando o índice vier, vão dizer que "veio dentro do esperado" ou "surpreendeu para cima". Pouco importa. O que importa é o que ninguém mede: o sujeito que parou de tomar café da manhã, a família que trocou carne por frango, o aposentado que reza para o gás não subir de novo.
Do outro lado do equador, o CPI americano cumpre função análoga. O Federal Reserve passou anos jurando que a inflação era transitória, depois jurou que ia domá-la, e agora joga o teatro do "veremos os dados". É o mesmo banco central que inundou o sistema com trilhões durante a pandemia e depois fingiu espanto quando os preços explodiram. Quer dizer, você imprime dinheiro como quem distribui panfleto e se surpreende quando ele perde valor? Só num cartório de doutores em economia essa lógica passa despercebida. A verdade simples, aquela que sua avó entendia, é que dinheiro que aparece do nada não cria riqueza, apenas redistribui pobreza com viés cruel: quem tem ativo se protege, quem tem salário apanha.
E como se não bastasse o circo monetário, entra em cena o impasse entre Washington e Teerã. Toda vez que dois governos brigam, o cidadão comum paga. O petróleo dispara, o frete dispara, a inflação importada dispara, e o brasileiro que nunca ouviu falar do Estreito de Ormuz descobre que sua conta de luz aumentou porque um aiatolá decidiu fazer pose. Siga o dinheiro: quem ganha com tensão geopolítica? As estatais petrolíferas, os complexos militares, os fundos especulativos posicionados no barril. Quem perde? O caminhoneiro autônomo, a dona de casa, o pequeno empresário que viu seu insumo subir vinte por cento sem ter feito absolutamente nada errado.
A pergunta que o noticiário econômico nunca faz é a mais elementar de todas. Por que o destino financeiro de cento e cinquenta milhões de brasileiros depende de uma reunião de banqueiros centrais, de uma planilha do IBGE e do humor de um governo teocrático do outro lado do mundo? Porque construíram um sistema em que o dinheiro deixou de ser representação de trabalho e virou ficção administrada por comitês. Em que o preço dos seus tomates é função de variáveis decididas por gente que nunca pegou numa enxada. É a tal pretensão de planejar de cima o que só funciona quando emerge de baixo, dos milhões de trocas voluntárias entre pessoas que sabem o que querem.
Hoje o pregão vai oscilar, os analistas vão falar bonito na TV, e amanhã esquecem tudo para começar de novo. O ciclo se repete porque é lucrativo para quem o opera. Enquanto o brasileiro discute se o Ibovespa fechou em alta ou baixa, deveria estar perguntando por que sua moeda vale menos a cada ano, por que seu salário compra menos a cada mês, e por que ninguém é responsabilizado quando a previsão falha. A resposta está na origem do problema: um sistema em que errar com o dinheiro dos outros nunca custou caro para quem decide.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.