Mais um dia em que o pregão brasileiro abre prendendo a respiração à espera de uma ata. Uma ata, repita-se devagar, redigida por um punhado de doutores que decidem, em sala fechada e com café importado, qual será o preço do dinheiro no maior mercado do mundo. O Ibovespa sobe ou cai, o dólar avança ou recua, bilhões trocam de mão, e tudo isso obedece não à produtividade real de empresas, não ao trabalho de quem acorda às cinco da manhã, mas ao palpite coletivo sobre o que meia dúzia de tecnocratas vai sinalizar no próximo parágrafo. Chamam isso de mercado. Eu chamo de teatro de marionetes com fio dourado.

O risco político brasileiro, esse personagem que nunca sai de cena, entra em cena de novo. E a reação é sempre a mesma coreografia previsível: corre-se ao dólar, vende-se bolsa, sobe o juro futuro, e os mesmos analistas que erraram a previsão da semana passada aparecem na televisão explicando, com cara séria, por que dessa vez é diferente. Não é. O que se vê é uma economia inteira sequestrada por dois centros de poder, um em Brasília gastando o que não tem e outro em Washington imprimindo o que não existe, e o investidor comum tentando proteger o pouco que ainda lhe sobra dessa pinça.

Vale olhar para o que não se mostra na manchete. Quando o Fed sinaliza juros mais altos por mais tempo, quem ganha não é o cidadão americano que economiza, é o sistema bancário que se alimenta da diferença entre o juro que paga ao poupador e o juro que cobra do tomador. Quando Brasília aumenta o risco fiscal, quem lucra não é o pobre que receberá o tal programa social, é o operador de mesa que comprou dólar a 5,40 e vende a 5,80 enquanto o sujeito do interior vê o preço do óleo de cozinha subir sem entender por quê. A inflação não é fenômeno natural, é decisão política travestida de fatalidade econômica.

O mais cômico, se não fosse trágico, é a solenidade com que tratamos esse ritual. Comentaristas falam da ata do Fed como antigos sacerdotes liam vísceras de animais para prever colheitas. A diferença é que o sacerdote ao menos acreditava no que fazia. Aqui todo mundo sabe que o rei está nu, que a moeda fiduciária é promessa de quem não tem nada a entregar, que a taxa de juros não deveria ser definida por comitê algum, mas pelo encontro real entre quem poupa e quem precisa de capital. Lembra-se ainda de uma época em que isso era assim? Pois é, faz tempo. Imprimiram esse tempo embora.

E aqui no Brasil, esse país que parece condenado a viver da gestão da própria patologia, o investidor sério tem duas opções: ou aprende a operar essa esquizofrenia, comprando proteção em dólar, em ouro, em ativos que o governo não consiga diluir com a canetada, ou aceita ser o fornecedor permanente de liquidez para os que sabem o lance antes de ele ser anunciado. Não existe terceira via. O Plano Real foi há trinta anos e ainda assim o brasileiro médio guarda dinheiro debaixo do colchão psicológico da poupança, esse instrumento que perde para a inflação com a regularidade de relógio suíço.

Enquanto o mercado espera a ata, eu sugiro outra leitura: olhe para a dívida pública brasileira, olhe para o déficit primário, olhe para quem está comprando os títulos do Tesouro a essas taxas absurdas e por quê. Siga o dinheiro até o fim da linha e você vai encontrar sempre o mesmo arranjo, o governo emite, o banco compra, o Banco Central refinancia, e a conta cai no contracheque do trabalhador via imposto inflacionário. O Ibovespa subir ou cair amanhã é detalhe. O jogo já foi decidido na mesa de quem desenhou as regras.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.