A cena é quase cômica se não fosse trágica. O investidor brasileiro acorda, abre o terminal, e descobre que o destino do seu patrimônio depende hoje de três coisas completamente alheias à sua vida. A primeira é o balanço trimestral de uma montadora de carros elétricos comandada por um sul-africano excêntrico em algum galpão do Texas. A segunda é uma coleção de índices de atividade industrial compilados por burocratas na China, na Alemanha e nos Estados Unidos, com metodologias que mudam conforme o vento político. A terceira, e mais pitoresca, é o humor de um clérigo xiita de oitenta e poucos anos que decide, entre uma oração e outra, se vai ou não mandar drones contra petroleiros no Estreito de Ormuz. E é isso que se chama, com toda a seriedade dos analistas de banco, de fundamentos de mercado.

Quer dizer, não existe nada mais revelador sobre o estado de vassalagem econômica em que o Brasil se enfiou do que essa manchete aparentemente banal. O Ibovespa oscila porque o PMI da zona do euro veio meio ponto abaixo do esperado. O dólar sobe porque um navio iraniano foi visto fazendo curva estranha no Golfo Pérsico. E o brasileiro, que produz soja, minério, carne, café, suco de laranja e petróleo em quantidades colossais, continua atado ao mastro como Ulisses, ouvindo o canto das sereias do Federal Reserve sem poder fazer nada. Um país continental, com um dos solos mais férteis do planeta, reduzido à condição de termômetro de febres alheias.

Olha, tem uma coisa que ninguém quer falar, e é a seguinte. A razão pela qual o Irã consegue balançar o preço do barril, e por tabela o câmbio e a inflação aqui, não é porque o aiatolá é geopoliticamente genial. É porque décadas de política monetária frouxa no mundo inteiro, com bancos centrais imprimindo dinheiro como se papel fosse infinito, criaram uma estrutura financeira tão fragilizada que qualquer espirro em Teerã vira pneumonia em São Paulo. O dólar forte que hoje castiga o real não é força americana, é fraqueza induzida de todo mundo que resolveu dançar conforme a música do Fed por vinte anos. Quando os juros lá sobem, o capital foge daqui na velocidade da luz, e o governo responde com mais imposto, mais gasto, mais CPMF renomeada. O ciclo é previsível, o script é conhecido, e mesmo assim a surpresa é sempre genuína na boca do ministro da Fazenda.

E tem o balanço da Tesla, essa peça de teatro trimestral que move trilhões. Repare no absurdo. Uma empresa que vive de subsídio verde, de crédito de carbono distribuído por governos, de isenção tributária em meia dúzia de jurisdições, é tratada pelo mercado como termômetro da inovação global. Siga o dinheiro, sempre. Cada ponto percentual que a Tesla sobe ou cai reverbera em fundos de pensão da Noruega à Austrália, em ETFs que brasileiros compram via corretora achando que estão diversificando, em reservas cambiais de bancos centrais que apostaram no tal do risco inteligente. O que se vê é uma empresa inovadora. O que não se vê é a montanha de dinheiro público, via incentivo fiscal e regulação favorável, que sustenta a festa. Tira o subsídio, tira o crédito de carbono, tira a benevolência regulatória, e o balanço vira pó. Mas ninguém quer falar disso porque a narrativa do futuro limpo vende mais que a contabilidade suja.

Enquanto isso, o Banco Central brasileiro faz o que sempre faz. Observa. Toma notas. Publica ata. Promete calibrar. A Selic sobe para matar inflação que o próprio governo importa via câmbio, num círculo vicioso em que o cidadão paga duas vezes, uma no cartão de crédito a trinta por cento ao mês, outra no supermercado que reajusta antes mesmo do dólar subir de fato. E o gasto público, esse sim, não pára de crescer. Aumento real do salário mínimo, novos programas sociais batizados com nomes bucólicos, PAC renascido com outro acrônimo, tudo bancado com dívida que os seus netos ainda não nascidos vão pagar. Não existe almoço grátis, e o banquete que está sendo servido em Brasília tem a conta endereçada para a classe média que ainda acha que política monetária é assunto de economista.

A verdade nua é que o mercado de hoje não reflete fundamentos, reflete dependência. Dependência de decisão estrangeira, de humor geopolítico, de política industrial de governos que nem sequer conseguem consertar as próprias economias. O Brasil poderia ser ilha de estabilidade num mundo insano, com disciplina fiscal, moeda forte, regulação mínima e Estado enxuto. Escolheu ser o contrário, e agora reza para que Elon Musk venda mais carro e o aiatolá esteja de bom humor. É o retrato de uma nação que trocou soberania por conforto retórico, e vai descobrir, como sempre descobre tarde demais, que a conta dessa troca chega com juros compostos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.