Pregão coreografado, manchete pronta, e o brasileiro médio achando que está vendo economia quando na verdade assiste a um ritual de comitês. Hoje o Ibovespa e o dólar oscilam ao sabor de três decisões de juros, Copom aqui, Banco Central Europeu lá, Banco da Inglaterra acolá, somadas à PNAD e aos dados americanos de praxe. A imprensa especializada vende isso como meteorologia financeira, como se taxa de juros fosse fenômeno natural, vento, maré, eclipse. Não é. É um punhado de gente reunida numa sala decidindo, no chute coletivo, quanto vai custar o crédito que financia a sua geladeira, a sua casa e o salário do funcionário da padaria da esquina.

Convém lembrar uma obviedade que a sofisticação dos boletins escondeu: não existe taxa de juros "correta" descoberta por sábios. Existe preço do dinheiro, e preço, como qualquer outro, deveria emergir do encontro entre quem poupa e quem toma emprestado, no mercado, com informação dispersa entre milhões de cabeças. Quando um comitê de nove iluminados senta numa mesa em Brasília e decide o número, está fazendo o mesmo que o planejador soviético fazia ao decidir o preço do pão em Moscou, com a diferença de que o planejador soviético, ao menos, tinha a decência de admitir que era socialista. O nosso veste terno, fala em inglês macarrônico nas atas e jura que é técnico.

Olha, basta seguir o dinheiro. Juros alto no Brasil sustenta carry trade que enriquece banco, fundo e rentista; juros baixo na Europa subsidia governos endividados que não cabem no próprio orçamento; juros titubeante na Inglaterra protege uma classe política que prometeu mundos e fundos e agora não sabe como pagar a conta. Em todos os três casos, o pagador final é o mesmo personagem invisível que ninguém entrevista nas reportagens de mercado: o trabalhador comum, cujo salário é corroído pela inflação que o próprio Banco Central fabricou nas décadas anteriores e agora finge combater como se fosse bombeiro num incêndio que ele mesmo ateou.

Quer dizer, a PNAD sai hoje e vai mostrar mais um capítulo do desemprego maquiado por bicos, aplicativos e estatística criativa, enquanto os dados americanos servirão de desculpa para o Banco Central local justificar o que já decidiu antes de a reunião começar. A liturgia é sempre a mesma: cria-se uma expectativa, vaza-se uma sinalização, ajusta-se a curva, e no fim os mesmos analistas que erraram a previsão do trimestre passado aparecem na televisão explicando, com cara grave, por que tudo aconteceu exatamente como deveria. É a astrologia financeira do nosso tempo, com a vantagem sobre o horóscopo de cobrar mais caro.

O Brasil paga uma das maiores taxas reais de juros do planeta há décadas e segue crescendo menos que o vizinho que nem nome decora no mapa. Por quê? Porque o problema nunca foi o juro alto isoladamente, foi o gasto público insaciável que obriga o Tesouro a competir com o setor produtivo por cada centavo poupado no país. Enquanto o orçamento federal for o monstro indomável que é, com emendas parlamentares viradas mensalão legalizado e despesas obrigatórias engolindo qualquer disciplina, nenhum Copom vai resolver coisa alguma. Eles apenas administram a doença. O remédio, a redução real do tamanho do Estado, ninguém quer prescrever, porque dói no eleitor, dói no lobista, dói no parlamentar e, sobretudo, dói no próprio sistema que vive da intermediação entre quem produz e quem confisca.

Me diz uma coisa, até quando vamos chamar de notícia econômica o boletim de uma assembleia que, na origem, não deveria existir? O dia em que o cidadão entender que o juro do seu cartão e o preço do seu arroz são decididos por um arranjo político disfarçado de ciência, talvez comece a exigir outra coisa. Enquanto isso, seguimos lendo manchetes sobre "mercado reagindo", como se mercado fosse bicho com vontade própria e não o reflexo nervoso de gente comum tentando proteger o que sobrou do próprio bolso depois que o Estado passou a mão.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.