Olha o espetáculo de hoje. O pregão abre e a primeira pergunta que o operador faz não é sobre o Brasil, é sobre o IPCA-15, sobre os números que vão sair de Washington daqui a algumas horas, sobre o que a Vale conseguiu arrancar do minério de ferro chinês e sobre quantos drones cruzaram qual fronteira no Oriente Médio na madrugada. Quer dizer, a economia de um país de duzentos milhões de habitantes, com a sétima maior reserva mineral do planeta, está pendurada em quatro variáveis que não dependem absolutamente de nada que se decida em Brasília. Isso não é mercado funcionando, isso é colônia esperando notícia da metrópole.

O IPCA-15 é o termômetro mais honesto que sobrou, e por isso mesmo é o mais incômodo. Quando o índice de preços ao consumidor sobe, ninguém na Esplanada fala em "imprimimos demais" ou "gastamos o que não tínhamos". Fala-se em choque de oferta, em clima, em guerra lá longe, em qualquer coisa, menos no óbvio: inflação não cai do céu, ela sai da impressora. Toda vez que o governo expande a despesa primária para sustentar programa eleitoral, alguém paga a conta na padaria, no posto, na conta de luz. Aquele aumento que você sentiu no carrinho do mercado não é azar, é fatura. E quem assinou a fatura foi o sujeito que prometeu que a refeição saía de graça.

O balanço da Vale merece capítulo à parte, porque escancara uma dependência que ninguém quer discutir em voz alta. A maior empresa exportadora do país tem seu destino amarrado ao apetite do Partido Comunista Chinês por aço, e o aço chinês, por sua vez, depende de um setor imobiliário que está em frangalhos há três anos. O que se vê é o número trimestral, o EBITDA, o dividendo. O que não se vê é que cada centavo a menos no minério reverbera em arrecadação federal, em câmbio, em emprego em Parauapebas. Construímos uma economia de monocultura mineral travestida de capitalismo moderno e agora rezamos para que Pequim não espirre. Estratégia brilhante, digna dos mesmos planejadores que nunca planejaram nada que tenha dado certo.

Os dados americanos, esses então, ditam o humor do dólar antes mesmo do café do operador esfriar. Se o payroll vier forte, o Federal Reserve segura o juro, o capital corre para o tesouro americano, e o real apanha. Se vier fraco, abre-se a janela para corte, o dinheiro flui para emergente, e o real respira. Note bem: nenhuma dessas duas hipóteses tem qualquer relação com a competência fiscal brasileira. Estamos no banco do passageiro, e o motorista não fala português. Quando um país abre mão de disciplina monetária e fiscal, ele não recupera soberania nunca mais; ele apenas troca o senhor de plantão.

E o Oriente Médio, claro, sempre o Oriente Médio. Cada míssil que sobe em algum lugar entre Teerã e o Mediterrâneo vira prêmio de risco no petróleo, vira pressão sobre o diesel, vira reajuste no frete, vira inflação no tomate três meses depois. O brasileiro paga, sem saber por quê, a conta de uma guerra que não escolheu, em um país que não localiza no mapa, por causa de uma cadeia de causalidade que ninguém na imprensa local se dá ao trabalho de explicar. É mais cômodo culpar o supermercado, o caminhoneiro, o atravessador, o "capitalismo selvagem". Os culpados de sempre, escolhidos a dedo para que os verdadeiros responsáveis, esses que assinam decreto e imprimem moeda, sigam intocados.

O recado do dia, portanto, não é sobre alta ou baixa do Ibovespa. É sobre o tamanho do nosso encolhimento. Um país que entrega seu pregão a quatro variáveis exógenas é um país que abdicou, em silêncio e por etapas, da própria capacidade de produzir prosperidade. E a parte mais sinistra dessa história é que ninguém vai à rua reclamar, porque a servidão moderna não vem com chicote, vem com gráfico colorido e manchete tranquilizadora. Quem aceita ser pauta dos outros nunca mais escreve a própria.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.