O Ibovespa fechou acima de 197 mil pontos pela primeira vez na última sexta-feira, terceiro recorde consecutivo. O dólar recuou para R$ 5,01, menor cotação em dois anos. Nas redações financeiras, nos grupos de WhatsApp dos analistas e nas notas matinais dos bancos, o tom era de celebração, como se o Brasil tivesse finalmente chegado a algum lugar. Havia apenas um detalhe que o entusiasmo coletivo preferia não iluminar: o único motivo concreto para a festa era que dois países no Oriente Médio decidiram, provisoriamente, parar de se matar. O Brasil não fez nada. A bolsa subiu porque o Irã abriu o Estreito de Ormuz de forma limitada e controlada, como anunciou uma autoridade iraniana, e porque JD Vance declarou estar ansioso para ter negociações positivas. Cada ponto do Ibovespa dependeu de palavras ditas em Teerã, não em Brasília.
O pano de fundo importa para entender a dimensão do problema. O Estreito de Ormuz, o gargalo geográfico por onde passa um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, esteve bloqueado ou sob ameaça direta por semanas. O barril de petróleo, que transitava em torno de 70 dólares antes do conflito, está cotado a cerca de 100 dólares mesmo depois do cessar-fogo. Isso não é recuperação, é o menor dos males. A economia global absorveu um choque de energia de proporções sérias, e o que os mercados estão comemorando não é a solução do problema, mas a pausa temporária no agravamento. É como celebrar que o incêndio parou de avançar quando a casa ainda está pegando fogo.
A trégua é estruturalmente frágil porque os pontos de discórdia são estruturais, não conjunturais. Os americanos exigem que o Irã encerre o enriquecimento de urânio, desmantele suas instalações nucleares principais, cesse o financiamento ao Hamas, ao Hezbollah e aos Houthis, e abra o Estreito permanentemente sem cobrar pedágio de passagem. O Irã não concordou com nada disso. O cessar-fogo de duas semanas é um intervalo para que os negociadores respirem, não um acordo. E Trump, que semanas atrás ameaçou bloquear qualquer navio tentando entrar ou sair do Estreito de Ormuz, transformou sua própria posição em variável imprevisível. Quando a liderança do processo de paz é exercida por alguém que publica ultimatos em redes sociais, a previsibilidade não é exatamente o adjetivo que vem à mente.
Enquanto isso, o Banco Central do Brasil se prepara para soltar o relatório Focus nesta semana, o ritual semanal em que os analistas de mercado informam ao banco central o que eles esperam que o banco central faça. É quase poético. As projeções de inflação, câmbio e juros que constam nesse relatório foram construídas num cenário em que o petróleo a 70 dólares já virou memória histórica. Com barril acima de 100 dólares, qualquer projeção de inflação já nasceu desatualizada. Qualquer expectativa de IPCA já tem embutida uma dose de otimismo que os preços nos postos de gasolina não confirmam. O Focus vai sair. Os analistas vão ler. E o petróleo vai continuar custando o dobro do que custava antes da guerra, independentemente do que qualquer projeção diga.
O problema mais fundo, o que nenhuma nota de conjuntura vai tocar porque tocá-lo exige honestidade incômoda, é que o Brasil construiu uma economia que comemora vitórias que não são suas e que chora derrotas que não causou. Nenhuma das reformas que fariam a economia brasileira menos vulnerável a choques externos foi feita. A carga tributária permanece entre as mais altas do mundo emergente. O custo de capital para empresas nacionais continua absurdo. A burocracia que asfixia o empreendedor local não foi tocada. O Estado gordo segue intacto, alimentado por impostos que seriam escandalosos em qualquer país sério. O que mudou essa semana foi a temperatura de um conflito a 12 mil quilômetros de distância. Quando o conflito esquentar de novo, e ele vai esquentar, o Ibovespa vai devolver a rentabilidade com a mesma velocidade e pela mesma razão: não porque o Brasil piorou, mas porque Teerã decidiu.
O mercado financeiro, em sua racionalidade seletiva, adora atribuir altas a fundamentos e baixas a fatores externos. Quando a bolsa cai, é a guerra, é o Fed, é a geopolítica. Quando a bolsa sobe, é a resiliência da economia brasileira, é a perspectiva de queda de juros, é a confiança dos investidores. A realidade é mais simples e menos lisonjeira: o Brasil é uma economia de tamanho médio, commodity-dependente, com Estado superdimensionado e mercado interno estruturalmente caro, inserida num mundo onde quem decide o preço do petróleo não lê o Focus. Três recordes consecutivos do Ibovespa sobre uma base de cessar-fogo frágil não são um fundamento. São um aluguel.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.