Bastou o cheiro de pólvora subir do Oriente Médio para o pregão brasileiro virar pista de patinação. O Ibovespa recua, o dólar engorda, o petróleo dispara e os comentaristas de televisão fazem cara de surpresa, como se o mundo tivesse sido inventado ontem. Não foi. Toda vez que um míssil cruza o Estreito de Ormuz, o brasileiro paga mais caro no posto, no supermercado e na conta de luz, e isso acontece com a regularidade de um relógio suíço desde a primeira crise do petróleo, em 1973. A diferença é que naquela época tínhamos a desculpa de sermos uma economia fechada e atrasada. Hoje, com tudo aberto, continuamos igualmente vulneráveis. Por quê?
Porque o Brasil construiu, ao longo de quatro décadas, uma economia que depende de três coisas que não controla: o humor dos investidores estrangeiros, o preço internacional das commodities e a paciência do mercado com a gastança em Brasília. Quando o mundo respira tranquilo, o real flutua, a bolsa sobe e o governo de plantão sai cantando vitória como se tivesse inventado a roda. Quando o mundo treme, a casa cai, e o mesmo governo descobre, perplexo, que o problema é externo, geopolítico, complexo, ninguém poderia prever. Olha, dá para prever, sim. Quem gasta mais do que arrecada, emite dívida acima da capacidade de pagamento e mantém juros nas alturas para segurar a inflação que ele mesmo fabrica está literalmente pedindo para apanhar no primeiro vento contrário.
O preço do barril sobe porque há risco real de interrupção de fornecimento, e o mercado, esse sistema de inteligência coletiva que os planejadores tanto desprezam, faz aquilo que sabe fazer melhor: precifica risco em tempo real. Não há comitê, ministério ou comissão capaz de processar a quantidade de informação que o pregão digere antes do café da manhã. E é exatamente por isso que toda tentativa de controlar preço de combustível por decreto, via estatal ou subsídio cruzado, termina em tragédia fiscal. Já vimos esse filme. A última versão custou bilhões aos cofres da Petrobras, devastou o investimento em exploração e deixou herança que estamos pagando até hoje. Quem ganhou? Lobistas, sindicatos do setor e o político que aparecia na televisão dizendo que estava protegendo o povo. Siga o dinheiro e você verá que ele nunca chega ao povo, sempre fica no meio do caminho.
O que não se vê nessa história é o mais importante. Vê-se o motorista reclamando do preço da gasolina. Não se vê o pequeno empresário que adia o investimento porque o dólar a seis e tanto inviabiliza a importação do insumo. Não se vê a inflação de alimentos que vai chegar daqui a três meses na conta do supermercado, porque o diesel mais caro encarece o frete, e o frete encarece tudo. Não se vê o aposentado que perde poder de compra silenciosamente enquanto o Banco Central tenta segurar o tranco com juros que estrangulam o setor produtivo. Crise externa é apenas o pretexto. A vulnerabilidade é estrutural, doméstica, fabricada aqui mesmo, com selo de garantia do Ministério da Fazenda e aprovação tácita de um Congresso que adora gastar dinheiro alheio.
Quer dizer, existe uma alternativa? Existe, e é simples de descrever, embora dolorosa de executar: gastar menos do que se arrecada, abrir a economia de verdade, respeitar contratos, garantir propriedade privada, deixar o mercado de capitais respirar e parar de tratar o investidor como inimigo de classe. País sério não treme quando o Irã espirra. Trema quem construiu casa de palha em terreno de furacão. E o pior é que, quando a poeira baixar e o petróleo voltar ao patamar normal, o governo vai dizer que a recuperação é mérito da gestão, e os mesmos comentaristas vão concordar com a cabeça. A memória do brasileiro é curta. A conta, no entanto, é sempre longa.
Enquanto isso, o tanque de guerra continua mandando no tanque do seu carro. E o pior é que isso só muda no dia em que pararmos de eleger gente que acha que pode mandar no mercado por decreto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.