O fato é prosaico e revelador. Trump decidiu adiar o acordo com o Irã para a véspera do payroll, aquele número sagrado que dita o humor de Wall Street por uma semana inteira, e os mercados emergentes, incluindo o nosso, recalcularam a rota com a docilidade de quem já entendeu que não está jogando, está sendo jogado. O Ibovespa oscilou, o dólar mexeu, e analistas de banco saíram correndo para escrever relatórios explicando o óbvio com palavras difíceis. A verdade, porém, é mais simples e mais constrangedora: o preço dos ativos brasileiros hoje depende menos do que acontece em Brasília e mais do calendário de uma negociação entre Washington e Teerã que ninguém em São Paulo controla.
Olha, quando uma economia precisa esperar o tweet do presidente americano para saber se sobe ou desce, alguma coisa está profundamente errada com a arquitetura. Não é livre mercado, é dependência. E essa dependência não caiu do céu; foi cuidadosamente construída ao longo de décadas de irresponsabilidade fiscal, de banco central que financia gastança, de governo que toma emprestado o que não tem e paga o que não deve. O resultado é um país que tem PIB de gigante e alma de refém, sempre à espera do humor alheio para saber quanto vale o pão de amanhã.
Quer dizer, repare na coreografia. O presidente dos Estados Unidos adia uma decisão diplomática para sincronizar com o relatório de empregos, porque sabe que o mercado vai reagir a uma coisa ou a outra, e ele quer controlar qual. Isso não é diplomacia, é gestão de narrativa. E o investidor brasileiro, que poderia estar analisando o balanço da Petrobras ou o resultado fiscal do trimestre, está com o olho grudado no relógio de Washington. A bolsa virou refém de um cronograma que ela não negocia, e o real virou termômetro de um humor que ele não influencia.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. Quem ganha com essa volatilidade fabricada não é o pequeno investidor, não é o produtor rural, não é o sujeito que tem aplicação no banco. Quem ganha são as mesas de operação dos grandes bancos, que arbitram cada centavo de oscilação com algoritmos que custam mais que orçamento de prefeitura. O resto da humanidade econômica brasileira só observa, paga a conta da volatilidade no preço dos importados, e finge que entendeu quando o jornal diz que o dólar subiu porque Trump twittou. A janela quebra, alguém vende vidro, e nos vendem isso como crescimento.
Me diz uma coisa, qual é a alternativa? A alternativa se chama soberania monetária real, que não é estatizar nada, é exatamente o contrário: é parar de emitir moeda para cobrir buraco fiscal, parar de subsidiar setor que não produz, parar de regular cada respiração da iniciativa privada. Um país com contas em ordem, gasto público sob rédea curta e mercado livre de fato não treme cada vez que um presidente estrangeiro espirra. Mas isso exige coragem política que nenhum governo dos últimos vinte anos teve, porque coragem dá menos voto que populismo, e populismo é a moeda mais inflacionada do continente.
O Ibovespa de hoje é apenas o sintoma. A doença é mais antiga, mais profunda e mais brasileira do que gostaríamos de admitir. Enquanto a gente continuar tratando geopolítica americana como variável macroeconômica nacional, vamos seguir sendo a plateia de uma peça em que nem sequer somos figurantes. E o ingresso, como sempre, sai do bolso do contribuinte.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.