O Ibovespa abriu esta segunda-feira em queda, pressionado pelo agravamento da crise no Estreito de Ormuz, depois que os Estados Unidos anunciaram o bloqueio naval de portos iranianos após o fracasso das negociações com o regime de Teerã. O petróleo Brent ultrapassou US$ 100 por barril, alta de 40% desde o início do conflito, com analistas de Wall Street já calculando cenários a US$ 200. Tudo que era risco de papel virou risco de baú. O Brasil sentiu o impacto na abertura, com o índice cedendo e o dólar pressionado. Mas atenção: enquanto o mercado recuava, as ações da Petrobras subiam quase 2%. Não é coincidência. É a lógica perfeita do capitalismo de compadrio em pleno funcionamento.

Pense no que aconteceu. Uma guerra que os Estados Unidos escolheram entrar, em parceria com Israel, derrubou o aiatolá Khamenei em fevereiro, bloqueou o maior corredor energético do planeta e fez o barril disparar mais de 50% desde então. Quem paga essa conta? O consumidor de gasolina em Taubaté. O caminhoneiro que abastece em Cuiabá. O pequeno industrial que precisou repassar o frete para não ir à falência. Quem lucra? A Petrobras, cujo valor de mercado está naturalmente indexado ao petróleo internacional; e, por consequência direta, o governo federal, seu acionista majoritário. Siga o dinheiro: a crise que derruba a bolsa engorda o caixa da estatal que financia o Tesouro. Isso não é coincidência; é o desenho do sistema.

Olha, existe uma crueldade sistêmica nesse arranjo que raramente alguém tem honestidade de nomear em voz alta. O sistema de preços do petróleo foi construído ao longo de décadas para que perturbações geopolíticas se transmitam imediatamente ao preço das commodities. Esse mecanismo é correto, é o mercado funcionando como deveria. O problema surge quando, no Brasil, o governo intervém nesse sistema com uma mão, segurando artificialmente o preço dos combustíveis na bomba para não irritar o eleitor às vésperas de alguma votação, e com a outra mão colhe os dividendos da Petrobras inflados exatamente pelo mesmo petróleo caro que fingiu não existir. É uma fraude contábil com aparência de política pública. Quem subsidia o combustível paga duas vezes: primeiro no imposto, depois na inflação.

A situação no Estreito de Ormuz não é um acidente meteorológico. A Guarda Revolucionária iraniana já realizou 21 ataques confirmados a embarcações mercantes e semeou minas pelo estreito desde fevereiro. Cerca de 20% de todo o petróleo negociado no planeta passa por ali; a demanda asiática já recuou quase 2 milhões de barris por dia somente neste mês. Quando se fecha o maior corredor energético da civilização moderna, não é a bolsa de São Paulo que define o preço, não é a diretoria da Petrobras, não é o ministro de Minas e Energia num pronunciamento bem-intencionado. São dois impérios em disputa por rotas, por poder, por precedente histórico. E o Brasil, como nas grandes crises do petróleo de 1973 e 1979, senta na poltrona de espectador e assiste ao seu custo de vida ser decidido lá fora.

Me diz uma coisa: qual é a política energética do Brasil para um cenário de petróleo a US$ 150 ou US$ 200? Existe algum plano de contingência que não seja "rezar para o Banco Central não ter que subir mais os juros"? A resposta honesta é não. O país que possui uma das maiores reservas de petróleo do hemisfério sul continua refém do mercado internacional porque nunca desenvolveu capacidade de refino autônoma suficiente, nunca investiu a sério em diversificação energética que não dependesse de subsídio federal, e nunca teve coragem política de liberalizar completamente o setor para que o capital privado construísse essa infraestrutura sem precisar de beija-mão em Brasília. O resultado está aí: quando o mundo pega fogo, o Brasil acende uma vela e espera pela nota técnica do Ministério da Fazenda.

O Ibovespa vai oscilar, a Petrobras vai subir enquanto o barril subir, e o mercado vai continuar sendo o termômetro de conflitos que o Brasil não controla e para os quais não se preparou. A vulnerabilidade de um país é sempre proporcional ao tamanho de sua dependência de decisões que outros tomam. O Brasil depende do petróleo cujo preço é feito em Riad, do dólar cuja política monetária é decidida em Washington e do crescimento chinês que é determinado em Pequim. Enquanto isso, Brasília debate teto de gastos.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.