O Ibovespa encostou em 197 mil pontos na semana passada. O dólar está abaixo de R$5,10. E o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, está minado, bloqueado e sob ameaça de um general iraniano que chamou a área de "vórtice mortal" para navios inimigos. Alguém está errado. Ou o mercado está certo ao precificar que tudo vai se resolver, ou está cometendo o mesmo erro que os europeus cometeram na primavera de 1914, quando as bolsas de Londres operavam tranquilas na véspera da maior carnificina que o continente já havia visto.

O petróleo já passou de US$100 o barril. O Brent subiu 7% em um único dia depois que as negociações em Islamabad desmoronaram e Trump anunciou o bloqueio naval total aos portos iranianos. Isso não é volatilidade, isso é o mercado físico gritando que o canal de abastecimento do mundo industrial está seriamente comprometido. Petróleo a US$100 significa inflação que demora meses para aparecer nas prateleiras e anos para sair. O preço não volta quando o conflito termina, porque a cadeia logística que foi desmontada não se remonta em decreto.

Agora a parte irônica: o real está se valorizando justamente porque o Brasil exporta petróleo, e petróleo caro atrai dólares para cá. A Petrobras lucra quando o barril sobe. O fluxo de capital para emergentes com Selic alta e commodities no teto está puxando o câmbio para baixo. Quer dizer, a bolsa brasileira se beneficia no curto prazo exatamente do mesmo problema que pode afundar a economia global no médio prazo. Quem compra ação de commodities hoje está apostando que o incêndio vai aquecer sua casa sem queimar o telhado. Pode até ser verdade. Mas é uma aposta, não uma análise.

Enquanto isso, o fiscal brasileiro segue com a meta em risco real. O governo federal acumula superávit primário no papel, mas as projeções de mercado apontam para um déficit de R$72 bilhões no ano, contra uma meta de superávit de R$34 bilhões. A distância entre o prometido e o realizado não é ruído estatístico, é um buraco de R$106 bilhões. Esse buraco não some quando o dólar cai. Ele só fica escondido debaixo do fluxo de capital que hoje prefere o Brasil por falta de alternativa melhor. Quando essa janela fechar, o mercado vai lembrar do que preferia esquecer.

O problema com mercados em alta no meio de crises geopolíticas sérias é que eles criam a ilusão de que os fundamentais estão bem. Não estão. O que está bem é o fluxo, e fluxo muda de direção sem avisar. Se o Estreito de Ormuz fechar de verdade por mais de trinta dias, as projeções mais pessimistas colocam o barril a US$200. Nesse cenário, a inflação global dispara, o Fed congela os cortes de juros, o dólar se fortalece novamente e o real volta a pressionar a casa dos R$5,50 ou mais. O Ibovespa em 197 mil pontos seria uma fotografia bonita de um momento que passou.

O mercado tem razão em precificar probabilidades, não certezas. O problema é quando a precificação das probabilidades vira negação dos riscos. Quarenta e cinco dias de conflito, 21 ataques confirmados a navios mercantes, minas no golfo, bloqueio naval declarado e negociações fracassadas não são "ruído geopolítico". São a anatomia de uma crise que ainda não mostrou seu rosto completo. A bolsa pode continuar subindo amanhã. Mas quem achar que o recorde histórico de hoje prova que está tudo bem não está lendo o mercado, está sendo lido por ele.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.