O Ibovespa bateu 199 mil pontos e o mercado financeiro brasileiro entrou em modo de comemoração coletiva. Bancos sobem, Petrobras dispara quase 3%, siderúrgicas lideram os ganhos, e já tem analista de corretora projetando 200 mil pontos como se fosse questão de dias. Me diz uma coisa, quando todo mundo está comemorando no mercado financeiro, quem está prestando atenção nos fundamentos? Porque os fundamentos, esses são de arrepiar.

O que está sustentando essa euforia não é a economia brasileira, que continua com a Selic acima de 12%, déficit nominal caminhando para o maior desde o Plano Real e uma dívida pública que já devora 84% do PIB, muito acima dos 76,5% que alguém um dia fingiu que era meta. O que sustenta o rali é dinheiro estrangeiro, R$ 67,3 bilhões no ano, sendo R$ 14 bilhões só nos primeiros dez dias de abril. Os gringos respondem por 60% do volume negociado na B3. Quer dizer, a bolsa brasileira é hoje, para todos os efeitos práticos, um cassino operado por capital externo que está aqui pelo diferencial de juros e pelo alívio momentâneo no petróleo, não porque acredita na solidez fiscal do país. Quando o estrangeiro entra com essa voracidade num mercado cuja moeda é instável e cujo governo gasta como se não houvesse amanhã, não é investimento de longo prazo. É arbitragem. E arbitragem tem porta de saída.

Olha, a queda do petróleo hoje responde ao cessar-fogo temporário entre Estados Unidos e Irã no Estreito de Ormuz, aquele gargalo por onde passa um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. O Brent, que tinha disparado acima de 100 dólares com o bloqueio naval americano, recuou e deu fôlego para Wall Street respirar. O S&P 500 subiu mais de 1%, a Nasdaq quase 2%, e o efeito cascata chegou ao Brasil. Mas cessar-fogo temporário é exatamente isso, temporário. O Reino Unido já rejeitou publicamente o bloqueio proposto por Trump, as negociações nucleares com o Irã não avançam, e qualquer declaração intempestiva de qualquer lado recoloca o barril acima de 100 dólares em questão de horas. Construir euforia sobre diplomacia instável é como erguer edifício sobre areia movediça.

O que mais incomoda, porém, não é a geopolítica. É a contradição doméstica. O governo brasileiro opera com um pacote de gastos de R$ 250 bilhões, salário mínimo crescendo acima da inflação, programas sociais se multiplicando, e a cada novo programa o Banco Central é obrigado a manter juros estratosféricos para conter a inflação que o próprio governo alimenta com a torneira aberta. É o velho ciclo que qualquer pessoa com dois dedos de honestidade intelectual reconhece: o governo gasta, o BC aperta, o crédito encarece, a economia real sufoca, mas a bolsa sobe porque juro alto atrai capital especulativo. O trabalhador brasileiro paga 12% de juros no financiamento enquanto o especulador estrangeiro lucra com o diferencial de taxa. Alguém aí ainda acha que isso é prosperidade?

Quem se der ao trabalho de olhar para o que não aparece na manchete vai encontrar um quadro bem menos festivo. O valor de mercado da B3 atingiu R$ 5,6 trilhões, sim, mas a participação dos investidores brasileiros pessoa física segue modesta. A festa é dos bancos, das commodities e do capital internacional. O Itaú sobe 1,7%, o Santander 1,8%, a Usiminas 6%, e o cidadão comum continua pagando a conta de um Estado que consome mais do que produz. A história econômica está cheia de episódios em que bolsas bateram recordes enquanto os fundamentos se deterioravam silenciosamente. O recorde anterior do Ibovespa em termos reais era de 2008, e todo mundo lembra o que veio depois. Não se trata de profecia, se trata de padrão. Quando a festa é financiada por dinheiro de fora e a conta fiscal cresce por dentro, a pergunta não é se a correção vem, mas quando. E quando vier, o gringo já estará no avião. Quem fica com a ressaca é você.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.