O índice da bolsa brasileira chega ao limite técnico dos 175.550 pontos e analistas de terno bem cortado aparecem nas telas explicando o óbvio com palavras complicadas. Falam em "correção saudável", em "realização de lucros", em "ajuste de carteira", como se o mercado fosse um paciente em consulta de rotina e não o termômetro de uma economia que vive de cateter fiscal há tempo demais. Quer dizer, a bolsa não está doente por acaso. Ela está reagindo ao que sempre reage: dinheiro fácil produzindo preços artificiais, e a realidade cobrando o boleto com juros compostos.
Olha, é preciso uma certa dose de cinismo institucional para tratar como novidade um movimento que estava escrito na parede desde o primeiro trilhão de gasto público fora do teto. Quando o governo expande crédito, distribui benesses, multiplica programas e ainda assim jura que vai "estimular a economia", o resultado nunca foi nem nunca será diferente: ativos inflam, o investidor distraído acredita que ficou rico, e quando o vento muda, descobre que a riqueza era nominal e a perda é real. Toda bolha precisa de um momento de honestidade, e o mercado, ao contrário do político, não consegue mentir para sempre.
Me diz uma coisa: quem ganhou enquanto o índice subia? Os mesmos de sempre. Bancos que captaram barato e emprestaram caro ao Tesouro, fundos cevados na renda fixa com juros nas alturas, consultorias que cobram por engenharia tributária de elite, e o seleto clube de exportadores beneficiados pelo câmbio cambaleante. A trilha do dinheiro nunca leva ao trabalhador da fábrica nem ao pequeno empresário que tenta sobreviver à carga tributária. Leva a Brasília, sempre a Brasília, onde o ciclo recomeça com nova rubrica orçamentária, novo subsídio "estratégico" e novo discurso sobre "investir no Brasil".
O fenômeno não é brasileiro, é apenas mais cru por aqui. Toda nação que entregou a gestão do dinheiro a um comitê de iluminados, achando que meia dúzia de doutores em sala fechada decidiria melhor que milhões de pessoas trocando bens livremente, terminou no mesmo lugar: ativos descolados da economia real, dívida pública impagável e classe média espremida entre a inflação que come o salário e o imposto que come o resto. A história econômica das últimas décadas é um cemitério de planos heterodoxos enterrados pela aritmética simples.
O que vem agora é previsível para quem aceita olhar sem o filtro ideológico do otimismo encomendado. Se o índice perder os 175.550, não será catástrofe imprevista, será confirmação. O mercado está apenas precificando aquilo que o palanque se recusa a admitir: não existe almoço grátis, não existe gasto sem conta, não existe boom eterno alimentado por impressora. A correção dolorida de hoje é o preço acumulado da farra de ontem, e tentar adiá-la com mais intervenção é a definição clínica de teimosia institucional.
No fim, o investidor que acreditou na narrativa oficial e o cidadão que pagou os impostos para sustentar a festa descobrirão juntos a velha lição que insistimos em desaprender a cada geração: liberdade econômica não é luxo de país rico, é condição para qualquer país sair da pobreza. Enquanto continuarmos terceirizando nossas decisões para tecnocratas que jogam com dinheiro alheio, o abismo dos 175.550 vai parecer pequeno diante dos próximos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.