O Ibovespa parado nos 176 mil pontos não é sinal de saúde, é o silêncio constrangedor de quem perdeu o fôlego depois de correr atrás do próprio rabo. Há semanas o mercado oscila entre euforia momentânea e ressaca fiscal, e a imprensa especializada insiste em chamar isso de "consolidação", como se dar nome bonito a uma estagnação fosse capaz de pagar a próxima emissão de títulos públicos. Quer dizer, o investidor pessoa física olha o gráfico achatado e se convence de que o pior passou, enquanto a dívida bruta do governo geral patina perto dos 80% do PIB e ninguém na sala parece muito disposto a abrir a janela para deixar a fumaça sair.

Olha, é preciso entender o que está sustentando essa calmaria artificial. Não é produtividade, não é poupança privada, não é confiança no ambiente de negócios. É juro real altíssimo bancando o carrego do governo, é estrangeiro arbitrando a Selic enquanto o Treasury americano dá sinais de fadiga, e é a velha promessa de que dessa vez, dessa vez mesmo, o ajuste fiscal sai do papel. Sai nada. Sai aumento de gasto disfarçado de crédito extraordinário, sai isenção do Imposto de Renda financiada com aumento na outra ponta, sai bondade eleitoral travestida de política social. O que se vê é a bolsa quietinha. O que não se vê é a engrenagem inflacionária sendo lubrificada nos bastidores, com dinheiro que ainda não foi impresso mas já foi prometido.

Me diz uma coisa: quando foi a última vez que uma economia emergente entrou em ano pré-eleitoral com gastança recorde e saiu sem deixar pedaço de couro no caminho? A história econômica brasileira é uma coleção de ciclos curtos onde o governo de plantão antecipa benesses, o Banco Central segura a vela com juros punitivos, o câmbio dá uma cambalhota, e no fim das contas quem paga a fatura é o sujeito do supermercado vendo o pacote de arroz subir de preço enquanto economista de televisão explica que isso é "choque de oferta". Choque de oferta uma ova. É expansão monetária com fantasia de Halloween.

Siga a trilha do dinheiro e o quadro fica nítido. Quem ganha com a bolsa nesses patamares? Bancos que fazem o intermediário, gestoras que cobram taxa de administração mesmo quando o índice anda de lado, e o próprio Tesouro, que coloca papel a juros nominais que rolam a bola para frente. Quem perde? O empreendedor médio, que não consegue capital de giro a juros civilizados; o trabalhador que vê o poder de compra do salário evaporar; e o pequeno investidor, que entrou no topo achando que "ações são para o longo prazo" e agora descobre que o longo prazo, no Brasil, é uma sucessão de curtos prazos catastróficos.

O sufoco não acabou. O sufoco mudou de cor. Saiu do vermelho gritante e entrou no cinza burocrático, aquele em que tudo parece sob controle até a próxima ata do Copom, o próximo relatório do Tesouro, o próximo desmoronamento de alguma narrativa que sustentava o castelo de cartas. Achar que 176 mil pontos é piso é o mesmo erro de quem em 1980 achou que a inflação de 100% ao ano era um teto. Sempre há mais espaço para descer quando o problema estrutural não é tratado, só maquiado.

O chumbo grosso vem, e vem da direção que ninguém está olhando: do fiscal solapando o monetário, do político devorando o técnico, do voto comprando o futuro. Bolsa parada não é bolsa salva. É bolsa esperando o gatilho. E o gatilho, no Brasil, sempre tem dedo de Brasília puxando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.