O Ibovespa amanheceu recuando, e a manchete, com aquele ar técnico de sempre, atribui o tropeço aos balanços corporativos e à proximidade das decisões de juros. Tradução para quem fala português fora do andar nobre da Faria Lima: o mercado está com medo do que um pequeno grupo de pessoas, reunido a portas fechadas, vai decidir sobre o preço do dinheiro. Repare na anomalia que ninguém mais estranha. Numa economia supostamente livre, o ativo mais importante de todos, o juro, que é o preço do tempo, é fixado por um comitê. Tudo o mais flutua, oscila, dança conforme a oferta e a demanda. Só o juro, justamente o juro, vem carimbado de cima como bula de remédio.

E os balanços? Ah, os balanços. Empresas que precisam justificar lucro num ambiente onde o custo do capital é decidido em Brasília, não pela poupança real da sociedade. O empresário brasileiro virou trapezista que precisa olhar para baixo a cada salto, porque a rede de proteção, isto é, a previsibilidade, foi confiscada por uma autoridade que se julga competente para calibrar a economia inteira a partir de uma planilha. Quando a empresa diz que o resultado veio aquém, raramente alguém pergunta quanto desse aquém é mérito do gestor e quanto é dano colateral de uma política monetária que oscila ao sabor do humor fiscal do governo da vez.

Olha, me diz uma coisa. Por que é que o investidor estrangeiro foge, o doméstico se esconde em renda fixa e o pequeno empresário não contrata? A resposta está escondida à vista de todos. Estão fugindo de um ambiente onde o Estado gasta como se o futuro não existisse, emite dívida como se ninguém fosse pagar e depois manda o Banco Central segurar a inflação que o próprio Tesouro fabricou. É o esquema mais antigo da economia política: socializa o gasto, privatiza o lucro do credor amigo e empurra a conta para o assalariado, que vê o salário derreter sem entender por quê. O preço dos alimentos sobe, o aluguel sobe, e o sujeito é convencido de que a culpa é do supermercado, do proprietário, do clima, do mercado, de qualquer coisa, menos da impressora que não para.

E o que ninguém vê, esse é o ponto que a manchete jamais contará, é a fila de empresas que não nasceram porque o crédito está caro, os empregos que não foram criados porque a empresa preferiu rolar dívida em vez de investir, as casas que não foram compradas porque o financiamento ficou inviável. O emprego do funcionário público concursado é visível, sai em foto, vira estatística. O emprego do jovem que ia montar uma oficina e desistiu porque o capital de giro virou luxo, esse não tem passeata, não tem manchete, não tem coluna no jornal grande. É um cadáver invisível, mas é cadáver.

Há ainda o teatro semântico de chamar de mercado um ambiente onde o jogador mais poderoso é o próprio governo. O Tesouro emite, o BC compra, os bancos grandes intermediam, os fundos pegam carona, e a tal mão invisível se transforma em mão muito visível, com CPF, RG e gabinete em Brasília. É capitalismo de compadrio com gravata e jargão técnico, e o operador da mesa, em São Paulo, sabe disso melhor do que qualquer ministro. Por isso ele vende na abertura. Não está apostando contra o Brasil, está apostando contra a previsibilidade da próxima roubada.

O Ibovespa caindo na abertura é só o termômetro. A febre é outra. Enquanto a sociedade aceitar que o preço do tempo seja decidido por decreto, que o gasto público seja sagrado e que a inflação seja sempre culpa de algum vilão imaginário, a bolsa vai continuar dando esses tropeços e o brasileiro comum vai continuar pagando uma conta que nunca lhe entregaram a fatura. Não existe almoço grátis, e o garçom desta refeição se chama contribuinte.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.