O recado vem embrulhado em papel de presente. A Iguá Saneamento informa ao mercado que o prejuízo do primeiro trimestre caiu 7%, e o noticiário traduz isso como progresso, como se quem perde menos dinheiro alheio estivesse ganhando. Quer dizer, a empresa segue no vermelho, segue dependente de injeção de capital, segue refém de uma estrutura tarifária que ninguém escolheu livremente, e ainda assim a manchete sugere recuperação. Olha, prejuízo menor não é lucro, é apenas hemorragia mais lenta, e tratar isso como conquista revela mais sobre a tolerância do mercado brasileiro com a mediocridade subsidiada do que sobre o desempenho da companhia.

A pergunta que ninguém faz é a mais óbvia: como uma empresa que opera em regime de monopólio territorial, com tarifa definida por agência reguladora, com contrato de concessão de trinta e cinco anos blindado contra concorrência, consegue dar prejuízo? A resposta está no arranjo. Saneamento no Brasil nunca foi negócio, sempre foi balcão. As empresas que assumem os blocos da privatização do setor sabem que vão pagar outorga bilionária na entrada, vão investir pesado nos primeiros anos e vão recuperar o dinheiro lá na frente via tarifa garantida e reajuste atrelado a índice oficial. Não há risco empresarial real, há cronograma financeiro. E quando o cronograma escorrega, o consumidor paga.

Me diz uma coisa, quem financia esse modelo? O BNDES, ou seja, o contribuinte que jamais foi consultado sobre se queria ser sócio involuntário de uma concessionária de água. Os fundos de pensão estatais, ou seja, o trabalhador que descobriu tarde demais que sua aposentadoria está parqueada em ativos cuja rentabilidade depende de o vizinho pagar conta de esgoto cada vez mais cara. As prefeituras, que cedem o serviço em troca de outorga e depois descobrem que perderam controle sobre o preço final. Siga a trilha do dinheiro e o suposto sucesso da privatização do saneamento revela-se mais uma operação de transferência: do bolso difuso de muitos para o caixa concentrado de poucos, com o selo de modernização estampado no contrato.

A própria narrativa de que "a iniciativa privada vai resolver o que o Estado não resolveu" só faz sentido quando há iniciativa privada de verdade, com risco de verdade, com falência possível e concorrência operando. Nada disso existe aqui. O que existe é capitalismo de compadrio com fantasia de eficiência, empresa privada blindada pelo Estado contra o próprio mercado, lucro privatizado e prejuízo socializado quando der ruim. Os ingleses passaram por isso nos anos noventa e ainda hoje discutem reestatizar as utilities porque o modelo deu errado lá também. A diferença é que aqui copiamos o erro com vinte anos de atraso e ainda chamamos de novidade.

E enquanto isso, o cidadão da periferia continua sem coleta de esgoto, a meta universal de saneamento até 2033 continua sendo piada interna do setor, e o relatório trimestral celebra que o buraco no caixa ficou 7% menor. Há algo profundamente errado num país onde o sucesso empresarial se mede pela velocidade com que a empresa para de perder dinheiro dos outros. Num mercado de verdade, com preço de verdade, com cliente livre para escolher, prejuízo recorrente significa uma coisa só: a empresa não deveria existir naquele formato. Aqui, significa que está na hora de pedir mais um aporte ao BNDES.

O que esse balanço esconde é mais relevante do que o que ele mostra. Esconde o subsídio cruzado entre regiões rentáveis e deficitárias dentro da mesma concessão. Esconde o repasse automático da inflação para a tarifa, que torna o risco do acionista praticamente zero. Esconde o lobby permanente para flexibilizar metas contratuais quando elas se tornam inconvenientes. E esconde, sobretudo, a pergunta de fundo que ninguém quer responder: por que precisamos de uma empresa para distribuir um bem que cai do céu de graça? A resposta honesta envergonharia tanto o regulador quanto o regulado, e por isso permanece engavetada, enquanto o trimestre seguinte se aproxima com nova promessa de prejuízo menor ainda.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.