A notícia é tão prosaica que quase ninguém percebe o que está embaixo dela. A Illinois Tool Works, conglomerado industrial centenário, comunicou ao mercado que vai distribuir US$ 1,61 por ação em dividendo trimestral. Ponto. Sem fanfarra, sem coletiva de imprensa, sem ministro batendo no peito. É o sexagésimo e tantos ano consecutivo em que a empresa entrega caixa real, em dólar contado, para quem confiou capital nela. Olha, isso é um espetáculo silencioso que o noticiário econômico, viciado em manchete sobre estímulo e taxa de juros, simplesmente não sabe ler.

Quer dizer, repare na assimetria. De um lado, uma fabricante de parafusos, soldas, equipamentos para alimentos e peças automotivas, gente que faz coisa que se pega na mão, gerando lucro suficiente para devolver bilhões aos sócios todo ano. Do outro lado, governos do mundo inteiro emitindo dívida para pagar dívida, chamando isso de política fiscal e exigindo gratidão. Um lado produz valor e prova com cheque. O outro lado consome valor e prova com decreto. A diferença entre civilização e parasitismo passa exatamente por aí, e o mercado, quando deixado em paz, sabe distinguir os dois com precisão cirúrgica.

Me diz uma coisa: por que uma empresa industrial americana consegue fazer o que nenhum tesouro nacional consegue? A resposta é incômoda para o burocrata. É porque ela opera sob a disciplina do preço, da concorrência e da escolha voluntária do cliente. Ninguém é obrigado a comprar nada da Illinois Tool Works. Cada dólar que entra ali entrou porque alguém, em algum lugar do planeta, calculou que o produto valia mais do que o dinheiro entregue em troca. Multiplique essa transação por décadas e você tem dividendo. Substitua isso por imposto compulsório e você tem déficit eterno, com a diferença de que o déficit ninguém recebe em casa.

Há também a parte que ninguém vê. Cada centavo desse dividendo é capital sendo realocado para mãos que vão usá-lo melhor, ou pelo menos para mãos que decidirão por conta própria. O aposentado que vive da carteira, o fundo de pensão que paga a viúva do operário, o pequeno investidor que reinveste no negócio do vizinho. Esse é o sangue invisível da economia, circulação de poupança real entre quem produziu e quem vai produzir. Quando o governo confisca lucro corporativo via tributação punitiva ou destrói margem via regulação delirante, esse fluxo seca, e quem paga não é o conselho de administração da multinacional, é a senhora que dependia do rendimento mensal para o remédio.

E note o contraste com o nosso pedacinho do hemisfério. Aqui no Brasil, qualquer empresa que ouse distribuir lucro consistente vira alvo de coluna esquerdista perguntando por que não está pagando mais imposto, por que não está financiando programa social, por que existe. Lá fora, o mesmo gesto é tratado como o que é, prova de saúde produtiva e respeito ao acionista. A inveja institucionalizada virou política pública em terras tupiniquins, e o resultado está na frente de todos: empresa que dá dividendo histórico mora no Norte, empresa que vive de subsídio, renegociação e perdão tributário mora aqui.

No fim, US$ 1,61 por ação parece pouco. Não é pouco. É a refutação trimestral, em moeda dura, da tese de que prosperidade brota de canetada estatal. Enquanto houver gente fabricando parafuso e devolvendo lucro, há civilização. No dia em que só sobrar tesouro emitindo título para pagar título, sobrou só o teatro.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.