Cento e quarenta milhões e seiscentos e cinquenta mil dólares. Esse é o tamanho da oferta que a Immix Biopharma, uma biofarmacêutica clínica em fase de testes, acabou de embolsar do mercado americano numa operação relâmpago. Para quem não está acostumado com o jargão, traduzo: uma empresa que ainda queima caixa, que ainda não vende absolutamente nada em escala comercial, que vive de promessa de molécula que talvez funcione em paciente que talvez seja curado, conseguiu convencer investidores institucionais a depositar o equivalente a setecentos milhões de reais no balcão. E ninguém chamou a polícia, ninguém pediu CPI, ninguém disse que era especulação predatória.
Aqui está o ponto que o brasileiro médio precisa entender antes de continuar reclamando que não existe ciência no Brasil. Nos Estados Unidos, capital de risco encontra ideia de risco sem precisar pedir licença para três ministérios, quatro agências reguladoras e um conselho consultivo composto por militantes de ONG. O sujeito que tem cem milhões de dólares na conta acorda, lê o prospecto, liga para o banco e na sexta-feira o dinheiro já está na empresa pesquisando terapia celular para mieloma múltiplo. No Brasil, esse mesmo sujeito gastaria seis meses preenchendo formulário da CVM, mais oito meses negociando com o BNDES uma contrapartida de geração de emprego em região prioritária, e quando finalmente o cheque saísse, o pesquisador já teria emigrado para Boston.
Repare na engrenagem invisível que torna isso possível. O americano que compra ação dessa biofarmacêutica está apostando o próprio dinheiro, sabendo que pode perder tudo, e se ganhar, paga imposto razoável sobre ganho de capital de longo prazo. Não tem governador prometendo socializar o lucro, não tem deputado propondo CPMF sobre transação financeira, não tem presidente do banco central dizendo que o investidor é egoísta por exigir retorno. O sistema inteiro foi construído sobre a premissa de que quem arrisca capital próprio merece ficar com o que conquistou. É por isso que lá nascem as empresas que depois o mundo inteiro usa. E é exatamente por isso que aqui não nasce nada além de fintech reembalando empréstimo consignado.
Agora siga o dinheiro com calma, porque essa é a parte que ninguém conta. Quem coloca cento e quarenta milhões numa empresa que ainda está em fase de ensaio clínico não está fazendo caridade. Está calculando que a probabilidade ponderada de aprovação do produto, multiplicada pelo tamanho do mercado endereçável, descontada pela taxa de risco apropriada, gera retorno superior ao de aplicação livre. Isso se chama alocação racional de capital, e é o oposto exato do que acontece quando o Tesouro brasileiro decide que vai escolher campeão nacional, oferecer crédito subsidiado a juro negativo, e quando a empresa quebrar, jogar a conta no contribuinte que nunca foi consultado. Lá, se a Immix não entregar, o investidor perde e segue a vida. Aqui, se o BNDES erra, o povo paga por trinta anos.
E ainda existe o detalhe estético da operação, que merece registro. Uma oferta dessa magnitude, executada em poucos dias, com banco coordenador, prospecto público, preço definido pelo mercado, sem reunião secreta no Planalto, sem convite a empreiteira amiga, sem comissão de assessor parlamentar, sem fundo de pensão estatal sendo arrastado para subscrever o que ninguém mais quis. É a beleza fria do mercado funcionando como deveria funcionar em qualquer país que respeitasse propriedade privada e contrato. Quando o capital flui livremente entre quem tem dinheiro parado e quem tem ideia que precisa de dinheiro, o resultado é tratamento contra câncer entrando em fase três. Quando o capital é capturado pelo Estado e redistribuído por critério político, o resultado é Refinaria Abreu e Lima.
A pergunta que fica não é por que a Immix conseguiu levantar cento e quarenta milhões. A pergunta é por que nenhuma empresa brasileira de biotecnologia, num país com a maior biodiversidade do planeta, com universidades públicas que consomem dezenas de bilhões por ano, com institutos de pesquisa espalhados em toda federação, consegue fazer o mesmo. A resposta, quem tem coragem de enxergar, está escrita em cada artigo da Constituição de 1988 sobre ordem econômica, em cada portaria da Anvisa, em cada alíquota de imposto sobre ganho de capital, em cada decisão judicial que trata investidor como inimigo do povo. Não falta cérebro no Brasil. Falta deixar o cérebro encontrar o capital sem pedir licença ao burocrata.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.