A Impinj, queridinha do nicho de etiquetas inteligentes, soltou os resultados do primeiro trimestre e a narrativa montada para amaciar o tombo é aquela velha conhecida, a tal "demanda fraca". Quer dizer, a empresa não vendeu o que projetou, os clientes seguram pedidos, os estoques nos canais continuam empilhados, e o release vem embrulhado naquele papel celofane corporativo que trata o ciclo econômico como se fosse uma frente fria vinda do Pacífico. Olha, a economia não tem clima. Tem incentivos. E quando os incentivos foram distorcidos por anos de juro abaixo do razoável e impressão monetária industrial, o resultado é exatamente este aqui, empresas que projetaram crescimento linear sobre uma base que nunca foi orgânica.
Me diz uma coisa, alguém realmente acredita que a explosão de pedidos durante o ciclo pandêmico e pós-pandêmico refletiu demanda real e sustentável? Foi euforia financiada. Varejistas comprando o triplo do que vendiam, fabricantes interpretando enchente como nível normal do rio, fundos jogando capital barato em qualquer empresa com a sigla "tech" no nome. Quando o crédito artificial seca, a maré recua, e aí se descobre quem estava de calção. A Impinj não é vilã da história, é mais uma personagem secundária que confiou nos sinais de preço fabricados pela engenharia monetária dos bancos centrais. Sinal falso gera decisão errada, e decisão errada custa caro no balanço seguinte.
Vale seguir o dinheiro, porque é aí que a peça de teatro fica interessante. Os estoques inflados nos canais de distribuição não apareceram do nada, foram financiados por linhas de crédito baratas que pareciam permanentes, foram justificados por projeções de consultorias que cobram por relatório bonito, e foram celebrados por analistas que recomendam compra enquanto o múltiplo está nas alturas e silenciam quando o múltiplo despenca. A conta sobra para o acionista que entrou na máxima acreditando na narrativa e para o trabalhador que será desligado quando a empresa precisar enxugar para sobreviver ao trimestre que vem. Privatizam-se os bônus do ciclo de alta, socializam-se os ajustes do ciclo de baixa, e ninguém nas mesas de comitê parece achar isso estranho.
O mais revelador é o vocabulário escolhido pela própria companhia. "Desafios de demanda" é uma expressão construída para não dizer nada e ao mesmo tempo eximir de tudo. Ninguém errou, ninguém superestimou, ninguém ignorou os sinais de que o boom era distorção. É a demanda que falhou, coitada, andava tão bem e resolveu adoecer. Esse tipo de linguagem é sintoma de uma cultura corporativa que aprendeu a falar com o regulador, com o jornalista preguiçoso e com o analista que não lê nota de rodapé, mas perdeu a capacidade de olhar no espelho. Empresa séria reconhece o que viu de errado, refaz a leitura do ambiente, ajusta a operação. Empresa que vive de narrativa terceiriza a culpa para um substantivo abstrato.
Tem uma lição mais larga aqui, que vai além da Impinj e atinge o Vale do Silício, o varejo americano, a indústria de semicondutores na Ásia e qualquer setor que confundiu efeito monetário com revolução produtiva. Toda vez que o juro real fica abaixo do que o mercado livre escolheria, o capital migra para onde não deveria estar, projetos ruins ganham vida útil artificial, projetos bons são abandonados porque o capital ficou caro demais comparado às alternativas inflacionadas. A correção não é castigo, é cura. Doloroso, sim, mas indispensável. Quem segura a correção com mais estímulo está apenas adiando o ajuste e tornando-o pior.
O resultado da Impinj não é um caso isolado, é um capítulo de uma novela que vai se repetir empresa por empresa, setor por setor, até que se entenda que prosperidade não brota de planilha do banco central, brota de poupança real, de capital paciente e de empreendedores que respondem a sinais de preço verdadeiros. Enquanto a turma da impressora insistir em substituir o termômetro pelo aquecedor, vai continuar surpresa quando o paciente piorar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.