A notícia é daquelas que deveriam constranger qualquer ministro com o mínimo de vergonha na cara, mas que será recebida em Brasília com o silêncio cúmplice de quem sabe exatamente o que fez. A importação de gasolina em abril deve mais que dobrar frente ao mesmo mês de 2025, de acordo com a Datagro. Quer dizer, o país sentado em cima de uma das maiores reservas de petróleo do hemisfério ocidental, com uma estatal que já foi vitrine e hoje é balcão político, está enfiando navio atrás de navio para comprar lá fora aquilo que poderia produzir aqui. Olha, isso não é acaso de mercado, é resultado aritmético de uma sequência de decisões tomadas por gente que acredita que preço é opinião e que refinaria se decreta em diário oficial.

Me diz uma coisa, quando se congela o preço do combustível para parecer generoso com o motorista na bomba, o que acontece com a margem de quem refina? Encolhe. E quando a margem encolhe por ordem política, não por eficiência, o que acontece com o investimento em nova capacidade de refino? Desaparece. É o alfabeto da economia real, aquilo que qualquer feirante entende mas que economista de palácio finge não saber. O subsídio travestido de política social não fabrica uma única torre de destilação, não constrói um único duto, não treina um único operador. O subsídio apenas transfere dinheiro do contribuinte invisível para o consumidor visível, e no meio do caminho enriquece o importador, o trader e o despachante aduaneiro.

É aqui que vale seguir a trilha do dinheiro, porque ela conta uma história mais honesta que qualquer coletiva da Esplanada. Cada litro importado atravessa uma cadeia de intermediários que ninguém elegeu, ninguém fiscaliza e ninguém questiona. O frete internacional é pago em dólar, o armador é estrangeiro, o seguro é estrangeiro, a refinaria que vende o produto está no Golfo do México ou na Índia, e quem recebe a conta final é o mesmo brasileiro que já paga os impostos mais abusivos da América Latina. Enquanto isso, a estatal que deveria estar investindo em parque refinador foi transformada em caixa eletrônico de dividendos extraordinários e em palanque de promessas de preço baixo que a física da economia não autoriza.

Há um detalhe que os analistas de banco fingem não notar porque atrapalha a narrativa oficial. A dependência de importação não é falha pontual de logística, é escolha estratégica disfarçada de acidente. Quando se destrói a previsibilidade do mercado interno com tabelamentos, quando se pune o investidor privado que ousaria montar uma refinaria com risco regulatório digno de república bananeira, quando se usa a empresa estatal como instrumento eleitoral em vez de empresa de energia, o resultado inevitável é este: um país de petróleo que compra derivado do estrangeiro. Os chineses riem, os americanos vendem, os indianos vendem, e o brasileiro paga duas vezes, na bomba e no imposto.

E ainda virá alguém, com cara de quem descobriu a pólvora, dizer que o remédio é mais intervenção, mais controle, mais agência reguladora, mais comitê interministerial. É sempre assim. O intervencionismo é aquela doença que pede como remédio exatamente o veneno que a causou, e o paciente, anestesiado por décadas de propaganda, concorda com a dose dupla. A verdade simples, que não rende manchete nem cargo em conselho, é que combustível é mercadoria como qualquer outra e obedece às mesmas leis de oferta e demanda que governam o feijão, o café e o aluguel. Quando se mente para o preço, o preço se vinga com desabastecimento; quando se mente para o investidor, o investidor se vinga com ausência.

O Brasil vai continuar importando gasolina em volumes crescentes não porque falta petróleo, mas porque sobra política sobre o petróleo. E enquanto o cidadão comum engolir a narrativa de que a culpa é do mercado internacional, do dólar, do clima ou do capitalismo selvagem, vai continuar pagando a conta de uma festa para a qual nunca foi convidado. Quem planeja a escassez costuma chamá-la de soberania; quem paga por ela costuma chamá-la, com mais precisão, de assalto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.