A Fundstrat soltou um relatório que deveria fazer corar qualquer defensor sério da hipótese de mercados eficientes, e o constrangimento foi tão grande que viraram piada interna em Wall Street: Trump é, ao mesmo tempo, o incendiário e o bombeiro do S&P 500. Posta uma ameaça tarifária às seis da manhã, derruba dois trilhões em capitalização até o almoço; recua às quatro da tarde com um truth conciliador, devolve um trilhão antes do fechamento. O mercado mais sofisticado do mundo, com seus algoritmos de microssegundo e seus PhDs em finanças quantitativas, virou plateia de reality show presidencial. E paga ingresso caro pelo entretenimento.

Quer dizer, o que esse fenômeno revela não é a genialidade de Trump nem a sua suposta capacidade de manipular o mercado. Revela algo muito mais grave e muito menos comentado: a economia americana está tão dependente de decisões discricionárias de uma única pessoa que perdeu qualquer pretensão de funcionar como sistema descentralizado de descoberta de preços. Quando o preço de uma ação da Apple depende menos do iPhone vendido em Xangai e mais do humor do presidente ao acordar, alguma coisa muito antiga e muito boa morreu silenciosamente. Esse algo se chamava economia de mercado.

E aqui vem a parte que ninguém em Faria Lima ou em Manhattan quer admitir em voz alta: o problema não começou com Trump. Começou no momento em que o Estado americano se arrogou o direito de fixar tarifas por decreto, decidir trilhões em gastos por canetada, escolher vencedores e perdedores via subsídios bilionários, e operar um Banco Central que move bilhões de balanço com uma reunião de oito pessoas. Trump apenas usa, com talento sociopata para o espetáculo, os botões que estavam ali, lubrificados, esperando alguém com menos pudor. O arranjo institucional já estava podre; ele só transformou a podridão em entretenimento.

Olha, sigam o dinheiro nesse circo e a coisa fica ainda mais feia. Quem ganha com volatilidade extrema, manchetes diárias e reversões abruptas? Não é o aposentado da Flórida com o 401(k). Não é o trabalhador de Ohio com seu fundo de pensão. São os fundos de hedge bem conectados que recebem o sinal antes, são os bancos de investimento que cobram mais por hedge em mercado nervoso, são os operadores de Washington que sabem antes do tweet o que vem no próximo tweet. O mercado virou uma loteria, e a casa, como sempre, é amiga do gerente.

Me diz uma coisa: alguém percebeu que há vinte anos o mercado reagia a balanços trimestrais, juros do Fed e dados de emprego, e hoje reage a postagens com erros de digitação? Esse rebaixamento não é técnico, é civilizacional. Uma sociedade que aceita que o preço dos seus ativos seja função da gritaria diária de um homem só está admitindo, sem cerimônia, que abandonou a ideia de que existe algo objetivo a ser descoberto. Resta apenas a vontade do soberano, e o resto é interpretação freudiana de manchete.

O verdadeiro escândalo da análise da Fundstrat, portanto, não é que Trump mova o mercado. É que o mercado se deixe mover por Trump. E o que isso anuncia, para quem ainda tem olhos, é que o capitalismo americano há muito deixou de ser americano e há ainda mais tempo deixou de ser capitalismo. É uma economia política travestida de economia de mercado, com analistas de banco fingindo que ainda existe alguma fundamentação racional debaixo do espetáculo. Não existe. Só existe o polegar do presidente sobre o teclado, e Wall Street rezando para que ele esteja de bom humor amanhã.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.