Um incêndio num hotel da região central de Délhi matou vinte e uma pessoas, sendo pelo menos dezoito estrangeiros que cometeram o erro de confiar na palavra impressa de um certificado oficial. O fogo começou de madrugada, as saídas de emergência não funcionavam como saídas nem como emergência, os extintores eram peça decorativa, e o famoso sistema de fiscalização indiano, robusto no papel e generoso em carimbos, revelou-se exatamente aquilo que sempre foi: uma indústria de cobrança disfarçada de proteção ao consumidor.
Quer dizer, a Índia tem ministério, tem secretaria, tem departamento, tem subdepartamento, tem inspetor, tem subinspetor, e tem, sobretudo, taxa. Taxa de licença, taxa de renovação, taxa de vistoria, taxa de regularização, taxa de tudo. O hotel pagou, como todos pagam, porque sem pagar não se abre porta na Índia. E pagou, presumivelmente, mais alguma coisa por fora, porque é assim que o jogo funciona naquele país, e qualquer um que tenha posto o pé em Nova Délhi sabe que o suborno não é a exceção do sistema, é o sistema. O resultado dessa engenharia regulatória sofisticadíssima está agora sendo recolhido em sacos pretos.
Olha, a história é sempre a mesma e em qualquer latitude. O governo se apresenta como guardião da segurança do cidadão, cria um cipoal de exigências que nenhum pequeno empresário honesto consegue cumprir, e produz por consequência matemática inevitável dois tipos de estabelecimento: o que fecha porque não aguenta o custo da burocracia, e o que sobrevive porque aprendeu a comprar o fiscal. Em nenhum dos dois casos o hóspede está mais seguro. Pelo contrário, ele está menos seguro, porque pagou caro pela ilusão de que alguém estava cuidando. O incêndio de Délhi não é falha de fiscalização. É a fiscalização funcionando exatamente como foi desenhada para funcionar: arrecadando.
Me diz uma coisa, se o hotel fosse responsável civil e criminalmente pela vida do hóspede, sem escudo de alvará, sem desculpa de "o governo aprovou", sem o conforto jurídico de exibir o certificado emoldurado na recepção, o dono teria gastado os mesmos centavos em fiação podre e portas falsas? É claro que não. Ele teria contratado seguro privado, e a seguradora, que perde dinheiro quando hóspede morre, teria mandado engenheiro de verdade vistoriar o prédio de verdade, porque seguradora não aceita propina, seguradora aceita prejuízo, e prejuízo dói. O mercado teria produzido segurança real porque incentivo real produz comportamento real. O Estado produziu papelada e cadáver.
E o que ninguém vai contar nos próximos dias, enquanto a imprensa indiana correr atrás do gerente do hotel para crucificá-lo sozinho, é o nome do inspetor que assinou o último laudo de vistoria, o valor da última taxa recolhida, e o nome do funcionário público que recebeu o envelope para fingir que viu o que não quis ver. Esses nomes vão sumir, porque sempre somem, porque o sistema protege os seus, e o gerente vai para a cadeia enquanto o burocrata vai para a aposentadoria com pensão integral. A pilhagem legalizada tem essa peculiaridade encantadora: ela cobra antes, mata depois, e ainda culpa a vítima.
No fim, dezoito famílias do outro lado do mundo vão receber um caixão lacrado e uma nota oficial em inglês macarrônico lamentando profundamente o ocorrido e prometendo investigação rigorosa, que é o eufemismo universal para "ninguém vai pagar por isso". O turista achou que estava comprando hospedagem num país com governo. Estava comprando hospedagem num país com governo, que é justamente o problema. Onde há monopólio estatal de segurança, há segurança de monopólio estatal, e monopolista, todo mundo sabe, entrega o pior produto pelo maior preço. Vinte e um caixões agora confirmam, com o silêncio definitivo dos que não podem mais reclamar do serviço, que o alvará é o documento mais inflamável do mundo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.