A rupia está apanhando feio no mercado de câmbio, e o Reserve Bank of India agora estuda subir os juros, vender reservas, apertar o capital, fazer o ritual completo do banqueiro central acuado. É a cena clássica que se repete em todo mercado emergente que resolveu, em algum momento da última década, brincar de expansão monetária achando que o crédito barato era almoço grátis. Não era. Nunca foi. E a rupia desabando contra o dólar é apenas o boletim de ocorrência atrasado de um crime cometido nas reuniões de comitê monetário que ninguém leu.

Olha, o roteiro é tão previsível que dá tédio explicar. O governo gasta mais do que arrecada, o banco central acomoda, a moeda enfraquece, a inflação importada começa a morder, o capital estrangeiro percebe o cheiro de queimado e corre, a moeda cai mais, e aí, só aí, o banqueiro central aparece de gravata na televisão prometendo "medidas para estabilizar". Quer dizer, as mesmas pessoas que destruíram a moeda agora se oferecem para salvá-la. E o público aplaude, porque a memória econômica do brasileiro médio, do indiano médio, do argentino médio, é a mesma: oito meses no máximo.

Me diz uma coisa, por que ninguém pergunta de onde veio a fragilidade da rupia? A resposta é tão deselegante que nenhum jornal vai imprimir: décadas de gastança pública financiada por emissão indireta, subsídios cruzados, programas sociais inchados, ferrovias que não saem do papel mas consomem orçamento, estatais deficitárias mantidas vivas por motivos eleitorais, e uma máquina regulatória que sufoca o empreendedor pequeno para proteger o oligarca grande. Cada rupia impressa para financiar isso tudo é uma rupia que vale menos amanhã. Não é mistério, é aritmética.

E agora vem a parte deliciosa, que é observar quem vai pagar a fatura. Subir juros para defender a moeda significa estrangular o crédito, quebrar a pequena empresa que dependia do empréstimo rotativo, esfriar a economia real, jogar trabalhador no desemprego. O banqueiro central não vai sentir nada, o ministro das finanças continua com salário em rupia mas patrimônio em dólar e ouro, o lobista das estatais segue recebendo sua mensalidade. Quem sangra é o pequeno comerciante de Bangalore, o motorista de táxi de Délhi, a dona de casa que viu o preço do óleo dobrar. Siga o dinheiro e você vai descobrir que ele nunca, em circunstância alguma, sobe a escada social, sempre desce.

O que se vê é o anúncio competente do banco central agindo com firmeza para defender a moeda nacional. O que não se vê é a destruição silenciosa do poder de compra que já aconteceu nos últimos cinco anos, é a poupança da família média evaporada em câmara lenta, é o investimento estrangeiro que não veio porque ninguém quer apostar em país que trata moeda como instrumento político. O que não se vê é sempre maior do que o que se vê, e é justamente por isso que esse tipo de política sobrevive: o custo é difuso, o benefício é concentrado, e a conta chega depois que o responsável já saiu do cargo, virou comentarista, escreveu memórias.

A verdade incômoda é que não existe banco central capaz de defender uma moeda que o próprio Estado se dedicou a sabotar. Você não conserta uma represa estourada subindo a altura do muro a jusante. A rupia vai continuar caindo enquanto Nova Délhi não enfrentar o vício do gasto, e como nenhum político da face da Terra tem incentivo para enfrentar isso, a rupia vai continuar caindo. O resto é teatro monetário, encenado por atores em terno escuro, financiado pelo contribuinte que pagou o ingresso sem saber.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.