Vejam o quadro: um superpetroleiro de bandeira ligada à Índia, abarrotado de gás liquefeito de petróleo, ensaia atravessar o corredor mais minado da geopolítica contemporânea, o Estreito de Ormuz, para abastecer panelas de pressão em Mumbai e Calcutá. A imprensa registra como curiosidade marítima. Eu registro como confissão. Quando o botijão de gás de uma democracia de 1,4 bilhão de almas depende de um navio passando ao alcance de drones iranianos e mísseis houthis, alguma coisa muito errada aconteceu, e ela não aconteceu no Golfo Pérsico, aconteceu nos gabinetes climatizados em que se decidiu, ano após ano, que o preço do gás doméstico seria fixado por decreto, e o resto da realidade que se virasse.
A Índia subsidia GLP residencial há tanto tempo que os indianos esqueceram que aquilo tem custo. O preço do botijão é definido pela tabela política, não pelo encontro entre quem produz e quem consome. Resultado previsível, e previsto desde o século passado por qualquer um que tenha aberto um livro sério de economia: a demanda dispara, a produção doméstica não acompanha, a importação explode, o déficit em dólares se agrava, e o governo, em vez de admitir que controle de preço é o pai de toda escassez, dobra a aposta. Compra mais. Subsidia mais. E manda navio onde ninguém mais quer mandar, porque já não há margem para escolher rota segura quando se está logisticamente no limite.
Olha, isso que se chama eufemisticamente de “crise energética histórica” não caiu do céu nem foi trazido pelo vento monção. Foi construído, tijolo por tijolo, por uma lógica que se repete em todo lugar onde políticos descobrem que dar coisa barata rende voto e cobrar a conta rende derrota. O preço artificialmente baixo destrói o sinal econômico que diria ao consumidor para economizar e ao produtor para investir. Sem esse sinal, o sistema voa cego. Quando a realidade cobra, e ela sempre cobra, o que aparece é um navio bilionário fazendo zigue-zague entre potências hostis para entregar combustível que deveria ser, em mercado livre, um pouco mais caro e infinitamente mais abundante.
Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. Quem ganha com o subsídio? No discurso, a dona de casa pobre. Na prática, a estatal importadora que vira gigante orçamentário, o operador logístico contratado, o intermediário político que negocia o frete, o financiador da dívida pública que cobre o rombo, e o burocrata que justifica o próprio cargo administrando a escassez que ele mesmo criou. Quem paga? O contribuinte indiano via imposto, o consumidor via inflação, o trabalhador via rúpia desvalorizada, e agora, num capítulo novo e tragicômico, o marinheiro filipino que dorme num quarto de aço atravessando uma zona de guerra para que o esquema continue de pé.
O que se vê é o navio, a manchete, o heroísmo logístico, o ministro dando entrevista sobre “segurança energética”. O que não se vê é a refinaria que não foi construída porque o preço regulado não pagava o investimento, o produtor doméstico que fechou porque não competia com importação subsidiada, o capital que fugiu para país onde contrato vale alguma coisa, e o cidadão comum que paga duas vezes, uma na bomba e outra no Tesouro. É sempre assim. O planejador adora ser fotografado inaugurando solução. Nunca aparece nas fotos da causa do problema.
E há a lição maior, que vale para a Índia, vale para o Brasil, vale para qualquer república tropical apaixonada por tabelar o que não entende. Energia barata por decreto é energia cara por consequência. Combustível subsidiado é combustível escasso. Mercado controlado é mercado capturado. E quando o sistema construído sobre essa areia começa a desabar, o último ato é sempre o mesmo: mandar um navio onde ninguém quer ir, rezar para que volte, e chamar isso de política pública. Quem aposta na panela tabelada termina cozinhando no próprio caldeirão.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.