Vinte e quatro horas. Esse foi o intervalo entre o desmentido oficial e a punhalada nas costas do contribuinte indiano. Na véspera, autoridades juravam de pés juntos que não havia plano nenhum para mexer nas tarifas de importação de ouro e prata. No dia seguinte, mais que dobraram a alíquota e ainda tiveram a cara de pau de chamar isso de "medida prudencial". Quando um governo precisa mentir hoje para tributar amanhã, é porque sabe perfeitamente que o que está fazendo é indefensável diante da luz do dia.

O pano de fundo é o mesmo de sempre, em todo país, em toda época, em toda língua. A rupia está apanhando feio no mercado de câmbio, o banco central indiano queima reservas tentando segurar a cotação, e o primeiro-ministro Modi, num exercício notável de paternalismo asiático, pediu publicamente que o povo "evitasse comprar ouro por um ano". Quer dizer, o sujeito quebra a moeda imprimindo, financiando déficit, distorcendo juros, e depois pede para o cidadão fingir que não percebeu. É a versão moderna do imperador exigindo que ninguém comente que ele está nu.

O ouro, convém lembrar, não é um luxo oriental, é um instrumento monetário de cinco mil anos. A índia sabe disso melhor que ninguém: famílias inteiras guardam riqueza em formato de aliança, pulseira, cordão, porque aprenderam, na pele, ao longo de gerações, que confiar no papel governamental é receita de miséria. Quando o Estado tributa essa fuga, ele não está combatendo "especulação", está confessando que a moeda que emite não compete com pedacinhos de metal amarelo. É o devedor xingando o credor por exigir o pagamento.

Olha o roteiro previsível: primeiro emite-se moeda além da produtividade real, depois a moeda perde valor, depois o povo corre para ativos duros, depois o governo proíbe ou taxa a fuga, depois surge o mercado paralelo, depois vem o controle de câmbio, depois a criminalização da posse, e no fim alguém escreve um artigo acadêmico explicando que "o livre mercado falhou". Não falhou nada. O que falhou foi a fantasia de que se pode imprimir prosperidade sem consequência. Cada degrau dessa escada é mais autoritário que o anterior, e nenhum governo na história desceu de volta voluntariamente.

Vale perguntar quem ganha com a tarifa dobrada. O contrabandista, primeiro, porque a margem entre o preço internacional e o preço local agora justifica até bote inflável atravessando o golfo de Omã. O joalheiro grande e conectado, segundo, porque tem importação licenciada enquanto o pequeno fica espremido. E o burocrata, claro, que ganha relevância, orçamento e poder discricionário sobre quem importa, quanto importa e a que preço. O perdedor é sempre o mesmo: a viúva, o trabalhador, a família que economizou em metal porque não confia, com toda razão histórica, em quem manda no banco central.

O que se vê é a manchete sobre "defesa da rupia". O que não se vê é a poupança da dona de casa indiana sendo confiscada por via oblíqua, sem precisar de polícia, sem precisar de decreto explícito, apenas por meio de uma alíquota inocente publicada no diário oficial. É o despotismo de carimbo, suave, educado, tecnocrático, e por isso mesmo mais eficaz que qualquer ditadura de fardas. Quando o governo precisa proibir o ouro para sustentar o papel, a pergunta correta não é se a rupia vai sobreviver, é por quanto tempo ainda vão fingir que ela está viva.

Com informações da ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.