A notícia de que a Indra Sistemas vai trocar o presidente executivo, semanas depois de o presidente do conselho ter sido empurrado para a porta da rua, soa como crise corporativa para o desavisado. Não é. É liturgia. É o ritual previsível de toda empresa que se entrega ao abraço do Estado em troca de contratos garantidos, e descobre tarde demais que o noivo cobra a dote em forma de poder de vida e morte sobre quem manda, quem fica e quem some. A Espanha chama isso de "campeão nacional de defesa". O nome técnico, em qualquer dicionário honesto, é capitalismo de compadrio com fardado.
Quem acompanha o enredo sabe como funciona. O governo, via SEPI, segura um naco grande das ações e passa a tratar a empresa como extensão da burocracia em Madri. Conselheiros entram e saem ao sabor do humor do gabinete de plantão, executivos são removidos quando ousam contrariar a linha política, e a estratégia industrial vira ferramenta de barganha geopolítica, de pacto de coalizão, de afago a aliado regional. O acionista minoritário, esse sujeito antiquado que ainda acredita em retorno sobre capital investido, fica vendo o valor da sua poupança oscilar conforme a temperatura da terça-feira em Bruxelas. Não há plano industrial; há plano de governo. E os dois raramente coincidem.
Siga o dinheiro e a coreografia se revela. Contratos de defesa fluem do Tesouro espanhol, transitam por Bruxelas via fundos de rearmamento europeu, aterrissam na Indra com a discrição de um desfile militar, e de lá se espalham por uma teia de fornecedores e consultorias cujos donos, espantosamente, costumam ter sobrenomes conhecidos nos corredores ministeriais. Quando o presidente do conselho cai por suspeitas de irregularidade, e o presidente executivo cai pouco depois sem que ninguém saiba ao certo por quê, o mercado entende a mensagem: ali não se discute desempenho, se discute lealdade. E lealdade, num arranjo desses, tem prazo de validade curto, porque depende de quem está sentado na cadeira do ministério da Defesa no semestre seguinte.
Há uma ilusão acalentada por meio mundo, inclusive por gente que se diz liberal nas terças e estatista nas quintas, de que setores sensíveis como defesa exigem a tutela estatal. É a velha conversa de que sem o pai-protetor o setor não floresce, não exporta, não compete com chineses e americanos. Olha, a evidência histórica diz o oposto. As empresas privadas de defesa que viraram potências globais nasceram da pressão competitiva, da disciplina do balanço, da liberdade para errar e quebrar. As tuteladas pelo Estado se tornam, invariavelmente, máquinas de gastar recursos públicos com retorno duvidoso, presas num ciclo de socorros, reestruturações e shakeups que enriquecem advogados, consultores e ex-secretários, e empobrecem o contribuinte que paga a conta sem ter sido consultado sobre nada.
O caso espanhol é particularmente didático porque expõe, num só palco, todas as engrenagens do sistema. O governo Sánchez precisa mostrar serviço à Otan elevando gastos militares, precisa agradar à coalizão internamente acomodando interesses regionais, e precisa garantir que a vitrine da defesa nacional cante a partitura escolhida no Palácio. A Indra é o palco onde tudo isso é encenado, e os executivos são figurantes que entram com o terno engomado e saem com a indenização contratual. Enquanto isso, ninguém pergunta ao engenheiro que efetivamente desenha o radar se aquele radar é o melhor que poderia ser construído, porque a pergunta relevante nunca foi essa.
Quer dizer, a moral da história não está no nome do próximo presidente executivo, e nem está nas declarações untuosas que virão a seguir sobre "continuidade estratégica" e "fortalecimento da governança". A moral está em entender que toda vez que um governo declara uma empresa "estratégica demais para o mercado", está apenas anunciando, com palavras bonitas, que pretende usá-la como bem entender. O resto é teatro. E o ingresso, como sempre, vem descontado direto do contracheque de quem nunca pisou no foyer.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.