O dado saiu, e a manchete tenta vesti-lo de paletó técnico, mas o fato concreto é simples e brutal. O índice de preços ao produtor da China, aquele que mede o quanto sai mais caro fabricar as coisas que o planeta inteiro consome, atingiu o maior patamar em quase quatro anos. O índice ao consumidor também surpreendeu para cima. Quer dizer, o regime que durante uma década inteira foi vendido como motor desinflacionário global, o sujeito que despejava containers de produto barato no resto do mundo e segurava a inflação dos outros, agora está virando exportador líquido de pressão de preços. E ninguém parece querer encarar o óbvio.
Olha, é sempre a mesma novela em capítulos diferentes. Você tem um banco central que injeta liquidez para socorrer o sistema imobiliário que ele próprio inflou, um governo central que despeja crédito em estatais zumbis para fingir crescimento, e uma autoridade monetária que desvaloriza o yuan como ferramenta de competitividade. O resultado dessa engenharia financeira é sempre o mesmo, e a história econômica registrou esse roteiro umas trezentas vezes desde o final do século dezoito. Imprime moeda, expande crédito, distorce a estrutura produtiva, e depois finge surpresa quando os preços sobem. O ciclo não é misterioso, é mecânico.
Me diz uma coisa, quem ganha com isso? Siga o dinheiro. Os exportadores chineses subsidiados ganham porque vendem mais caro em dólar enquanto recebem socorro estatal em yuan. O Partido ganha porque transfere o custo do seu desastre imobiliário para o consumidor global via preços de bens manufaturados. O importador brasileiro perde, o consumidor brasileiro perde duplamente porque importa a inflação chinesa e ainda paga o pedágio cambial do nosso próprio descontrole fiscal. É o velho truque, socializa-se o prejuízo, privatiza-se o lucro, e o pagador da conta nunca é convidado para a reunião onde a decisão foi tomada.
O que se vê na manchete é o número. O que não se vê é a cadeia toda. Não se vê a fábrica de São Paulo que vai recompor preço no atacado em três meses, o supermercado em Goiânia que vai repassar em quatro, o seu salário que vai chegar em janeiro valendo menos do que valia em outubro. Não se vê o pequeno produtor que quebra porque não consegue competir com o aço subsidiado, nem o trabalhador que perde o emprego porque a indústria local não aguenta o dumping. A planilha do Banco Central registra o ponto percentual, a sua vida registra o estrago, e a distância entre uma coisa e outra é exatamente o espaço onde mora o engano.
E aqui mora a ironia mais ácida da geopolítica contemporânea. Durante anos os comentaristas de poltrona explicaram que o modelo chinês era a prova viva de que o planejamento central podia dar certo, que bastava ter quadros competentes e dados em tempo real. Pois bem, os quadros estão lá, os dados estão lá, os algoritmos estão lá, e mesmo assim o sistema produz exatamente o que os homens livres avisaram que produziria: bolhas, distorções, malinvestment e finalmente o repasse inflacionário inevitável. Nenhum comitê, por mais brilhante, substitui milhões de decisões livres tomadas por gente que arrisca o próprio bolso. Nunca substituiu, nunca substituirá.
O recado para o Brasil é o que ninguém quer ouvir, porque obriga a olhar no espelho. Importar deflação chinesa foi muleta cômoda para uma classe política que jamais quis fazer dever de casa fiscal. Agora a muleta quebrou. Quem dependia daquele preço camarada da prateleira vai descobrir que a fatura sempre existiu, só estava sendo paga por outro. E quando a conta vem do exterior somada à conta que o nosso próprio governo emite todo mês na máquina de imprimir, o resultado não tem mistério. Inflação não é fenômeno meteorológico, é decisão política. Sempre foi.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.